terça-feira, 5 de janeiro de 2016

‘Spotlight – Segredos Revelados’ e o fazer jornalístico

 

Se contar uma história pode ser algo difícil, contar uma história sobre pessoas contando uma história é ainda mais problemático. Não entendeu? Spotlight se propõe a ser um filme sobre jornalismo. Assim sendo, adicione tudo isso ao momento atual, marcado por um jornalismo muito desacreditado, e imagine o pepino. “E se, ao contar esta história, alguém errar na mão e ferrar mais com a situação deste pobre menino que respira por aparelhos?”, questiona um espectador que preferiu não se identificar. Felizmente, Thomas McCarthy faz um filme na medida certa, narrando com maestria o fazer da profissão e seu papel na sociedade – não se esquecendo, claro, de contar uma história palatável a todos.

Em Spotlight – Segredos Revelados, acompanhamos o dia a dia dos jornalistas do Boston Globe que, em 2002, relataram uma série de casos de estupro e abuso infantil cometidos por padres da cidade. As matérias impulsionaram uma reação em cadeia, trazendo à tona diversos casos semelhantes em todo o mundo. A obra é centrado no então novo editor Marty Baron, interpretado por Liev Schreiber, e, principalmente, na equipe “spotlight” do jornal: Walter Robinson (Michael Keaton), Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James). 

Marcado por atuações inspiradas, o longa tem a proeza de se manter interessante e com bom ritmo até mesmo nas várias reuniões da redação. Boa parte de Spotlight se passa num escritório do Boston Globe. Acredite, não fica cansativo. Ainda que o roteiro de McCarthy e Josh Singer possua alguma barriguinha, este é econômico ao trabalhar as situações na redação e preciso no processo de apuração do ocorrido. Uma sequência que traduz esta característica se encontra lá para o meio do filme, com Mike e Sacha entrevistando pessoas distintas. Neste momento, a eficiente montagem de Tom McArdle é econômica ao passo que, em poucos minutos, contrasta bem os métodos e dificuldades de cada um deles enquanto jornalistas – além desenvolver estes personagens em tela.

Em 128 minutos de projeção, o filme propõe discussões que vão desde a importância de uma fonte que, a princípio, não se encontra no escopo da pauta (como o caso de Phil Salviano, vivido por Neal Huff) até as problematizações da natureza do abuso. Mesmo não adentrando a maioria das questões, é visível seu esforço em pelo menos pincelá-las. O verdadeiro primor está mesmo no desenrolar da reportagem, nos diferentes estágios e percalços do jornalismo investigativo. E ainda que logo no começo possamos nos perder em meio a tantos nomes e ocorridos (afinal, não estamos anotando nem arquivando as informações como eles), Spotlight oferece uma experiência imersiva e completa.


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Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight) – EUA 2015 – Direção: Thomas McCarthy | Roteiro: Thomas McCarthy e Josh Singer | Com Liev Schreiber, Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian d’Arcy James
 
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