quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Crítica - Corrente do Mal

 

A sequência que abre Corrente do Mal é um tanto instigante. Nela, uma garota sai de casa com medo, parecendo temer e fugir de algo/alguém que não vemos. Como não conhecemos esta personagem, o que acontece com ela logo depois não mexe tanto conosco, mas instiga. Além disso, esta sequência consegue antecipar, sem contar demais ou apelar para a exposição, um pouco da maldição que o filme trabalhará em seus 100 minutos. O problema é quando a melhor sequência já foi usada ali, no comecinho. 

Jay Height (Maika Monroe), uma jovem moça que ainda cursa o colegial em Michigan, sai num encontro com Hugh (Jake Weary). Após fazerem sexo, o rapaz avisa que acabou de passar para ela uma maldição. Esta permite ver figuras estranhas que vagam pelos lugares e tentam matá-la.

Por aqui, há um tom diferente em relação a outros filmes de terror. It Follows possui um desenvolvimento mais lento, que trabalha a serenidade da cidade interiorana e brinca com o que já há de misterioso num local assim. É interessante ressaltar também como, pelo menos nos primeiros momentos, o filme foge dos clichês mais batidos do gênero, como a trilha que se torna mais presente antecipando um susto e afins.

No entanto, o filme não consegue desenvolver bem aquilo que de principal apresenta: a maldição. Após algum tempo, fica bobo, damos pouca credibilidade ao que acontece em tela e as atitudes de alguns personagens quebram a construção que o filme havia feito. Num determinado momento, Jay e alguns amigos encontram Hugh e querem tirar satisfação a respeito da maldição. O que acontece? Nenhuma briga, nada. Apenas todos juntos tomando refri no jardim e discutindo o que acontece. Esta cena, inclusive, tem direito a uma piadinha completamente fora do tom que o filme vinha apresentando e que deslegitima ainda mais a sensação que ele quer que o espectador tenha quanto à maldição. 

Outro ponto desfavorável na balança é a montagem de Julio Perez, que, além de pouco suave em suas transições, ainda é insegura no uso de seus infinitos establishing shots. Não quebra tanto o tom da narrativa quanto a instabilidade do roteiro, mas incomoda ao longo do filme. Quanto às atuações, fiquei com a sensação de que a direção de atores de Mitchell é um tanto deficitária. Senti mais alguns adolescentes atuando separadamente e menos uma coerência maior das situações performadas. Ainda assim, Maika Monroe destaca-se na medida do possível e confere a Jay as inseguranças e o medo da personagem, mas sem o exagero que facilmente poderia aparecer.

Fui capturado pelo climão frio de Corrente do Mal logo no início e achei que veria ali uma história de terror diferente das usuais, o que se comprovou ao longo do filme, de certa forma. Seus problemas estão mesmo em como Mitchell trabalhou as situações do filme, desgastando rapidamente a maldição que atazana os personagens e não mantendo a coerência do tom escolhido no início. A maldição chegou por trás e o filme nem viu.

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Corrente do Mal (It Follows) - EUA 2014 - Direção e roteiro: David Robert Mitchell | Com Maika Monroe, Keir Gilchrist, Daniel Zovatto, Lil Sepe, Olivia Luccardi
 
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