terça-feira, 7 de abril de 2015

A onda forte de 'Vício Inerente' num universo de personagens instáveis e pirados

 
Enquanto eu esperava para assistir ao clássico Alien, o Oitavo Passageiro numa mostra realizada aqui em Belo Horizonte, estava a ler o romance Vício Inerente, de Thomas Pynchon. Depois de guarda-lo, um rapaz gente boa chegou e perguntou: “tá entendendo alguma coisa desse livro?”. Obviamente foi uma brincadeira para socializar, mas não deixa de apontar uma característica peculiar tanto da obra de Pynchon quanto do roteiro adaptado por Paul Thomas Anderson: se vacilar, perde o fio da meada, bicho.


Em sua segunda adaptação (a primeira foi com Sangue Negro, inspirado em Petróleo!, de Upton Sinclair), Anderson narra a intensa vida setentista de Larry “Doc” Sportello, um detetive particular interpretado por Joaquin Phoenix. Marcadamente neo-noir, Vício Inerente não é um filme necessariamente difícil de entender, mas exige concentração por parte do espectador. Não é à toa que, aliado à eficiente montadora Leslie Jones, PTA consegue até facilitar as coisas para a narrativa fluir melhor. 

De qualquer maneira, não há como não citar quão... “cansativa” pode ser a experiência de assistir ao filme. Digo isso não pelo fato de ser um filme longo, vale lembrar Magnólia, uma obra única dos anos 1990 e que tem três horas. Vem do romance de Pynchon – e levemente realçado por Anderson – o motivo de eu apontar que o filme é carregado demais. Os três casos com os quais Doc trabalha durante as quase duas horas e meia são interessantes, sim, e correlacionam-se de uma maneira sagaz. O problema é que a história se repete demais, seja na apresentação de cada um dos inúmeros personagens ou na reutilização de situações para dar liga ao filme. Com tantas miniapresentações, fica até difícil lembrar de determinado personagem sem rapidamente se confundir se na verdade era fulano ou ciclano que apareceu naquele momento.

Ainda assim, estes (eles mesmo, os personagens) são o charme da obra. “Bigfoot” Bjornsen (Josh Brolin), o policial que cola incansavelmente no pé de Doc, representa um contraste interessante em relação ao nosso protagonista das costeletas. Brolin traduz todo o sentimento de “macheza” e um quê de durão presente em seu personagem.  É o conservador vs. liberal ao extremo, a contracultura e seu algoz. Contracultura esta que tem o “amor” acima de quase tudo, emoção (?) tão almejada por Doc – e por vários outros da trama. Afinal, é característica forte de PTA a busca pelo amor, como bem ressaltou Mauricio Saldanha em alguns comentários sobre o diretor.

Se não me falha a memória, as criações de Pynchon estão todas ali. A mais marcante, sem sombra de dúvidas, é o próprio Doc. Conseguindo escapar do perigoso tom caricatural presente no livro, Phoenix encarna a essência hippie de Larry Sportello sem ressalvas. Tenho forte convicção de que muita marijuana possa realmente ter rolado ali pelas cenas em que Doc dá um tapa – ou seja, o tempo todo. Inclusive não me surpreendo por não ter visto Phoenix ganhando ou tendo sido indicado nas últimas premiações. Trata-se de uma atuação corajosa e que foge dos padrões costumeiros destas ocasiões.


Couch, curta de 2003 em que Anderson continuou sua parceria com Adam Sandler, é a prova pura de que o cineasta sempre quis flertar um pouco com a comédia. Já Vício Inerente é o equilíbrio entre uma trama bem amarrada e com um teor “sério”, mas que abre seus diversos espaços para um humor mais trabalhado, principalmente para cenas absurdas e/ou nonsenses. Bjornsen, por exemplo, adora comer bananas cobertas de chocolate, aquelas mesmo que a gente via em Arrested Development. Uma das cenas que traz toda a malemolência do policial ao degustar o doce tem, em seu segundo plano, a espantada cara de Larry encarando aquele bizarro momento. Noutra, o mesmo Sportello é empurrado por um tira enquanto caminhava em direção à delegacia. Não há como não rir de sua esquizofrênica tentativa, após se levantar, de chegar à porta sem levar outro empurrão. Por fim, poderia até dizer da sequência que traz Martin Dew na pele do irreverente Dr. Tubeside, mas vou deixar no ar só pra não atrapalhar a diversão de ninguém.

Por um lado, a fidelidade da adaptação é impressionante ao realmente reconstruir visual e sonoramente a história de Pynchon. Por outro, os mesmos erros que tanto atazanavam a leitura continuam da maneira como estavam. O que não quer dizer que Vício Inerente, mesmo se saindo como o menos marcante filme de PTA, não seja uma obra interessante e esteticamente admirável. Ainda que você perca o fio da meada, dá pra curtir a ambientação maneira dos anos 1970, a recriação supimpa de todo o figurino dos personagens (e as rimas visuais presentes principalmente nas roupas de Doc), etc. Dizem que a experiência fica melhor e mais inteligível com uma erva. Melhor tentar.

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Vício Inerente (Inherent Vice) - EUA 2014 - Direção: Paul Thomas Anderson | Roteiro: Thomas Pynchon (livro) e Paul Thomas Anderson | Com Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Joanna Newsom, Katherine Waterston e Owe Wilson
 
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