quinta-feira, 9 de abril de 2015

'Chappie' e sua capacidade de transformar uma máquina de repressão em uma figura adorável

 

Em um futuro próximo, a polícia recebe o apoio de uma leva de robôs programados a auxiliá-la no combate ao crime urbano. Deon (Wilson Dev Patel), que trabalha na companhia responsável pela produção dos robôs, consegue terminar um código capaz de desenvolver uma Inteligência Artificial, mas é logo barrado por sua superior (Sigourney Weaver) ao pedir o uso de uma das máquinas da empresa. Deon consegue, então, pegar escondido um robô com defeitos em sua bateria e logo testa sua descoberta. O resultado é Chappie (Sharlto Copley), o primeiro robô capaz de pensar e sentir sozinho.

Quem já assistiu a qualquer coisa de Blomkamp, mesmo que o tenha feito há algum tempo, dificilmente não reconheceria que quem está ali é alguém familiar. Chappie abre com registros jornalísticos que narram o que acontece naquelas malucas terras sul-africanas. Não engana ninguém seu teor descompromissado, mas que cede a uma abordagem mais pesada quando é requerido. Após o controverso Elysium, lançado há dois anos, o cineasta parece ter finalmente voltado a acertar.

Neill, em parceria com Terri Tachell, sua esposa, consegue mais uma vez provar que não tem medo de explorar as referências que construíram seu repertório cinematográfico. Por aqui, Robocop de Paul Verhoeven é o exemplo máximo daquilo que os dois julgaram interessante homenagear em sua nova sátira sci-fi. Ao contrário do eficiente remake do ano passado, do também eficiente José Padilha, Chappie se entrega ao tom canastrão e bem-humorado do policial do futuro de 1987. É quase assustador (ou tarantinesco) o robô desenvolvido por Vincent Moore, personagem de Hugh Jackman, claramente “inspirado”, dizendo pouco, naquela falha máquina do longa de Verhoeven. A dupla explora o sci-fi como plano de fundo para dar a Chappie, sua estrela robótica, a chance de tomar para si todos os holofotes do filme. 

É facílimo se apaixonar por Chappie logo na primeira cena em que o robô é ligado. Como um humano que acaba de vir ao mundo, deve ainda desenvolver habilidades como a fala e a coordenação motora, aprender os costumes e a cultura daqueles que o cercam. As descobertas de Chappie, assim como a dublagem de Sharlto Copley, seguem um desenvolvimento que, além de divertidíssimo, tem muito a comentar sobre a influência do meio numa criação, como é criado o repertório de referências de um ser pensante, etc.


Um dos problemas de Chappie se encontra ao deixar abandonados demais os personagens que compõem aquele circulo do protagonista robótico. O próprio roteiro o torna unidimensionais ao passo que transforma Chappie num ser extremamente denso e interessante. Neill até tenta, com Deon e Vincent, criar um conflito maior que dê liga a um subplot do filme, mas falha. Uma sacada legal foi botar como membros da sociedade marginal Ninja e Yo-Landi, do grupo sulafricano de rap-rave Die Antwoord. Novamente, a presença deles é mais uma ferramenta utilizada por Blomkamp do que uma forma de desenvolver melhor outros personagens. Ao final, isto é muito sentido no grande embate entre os “lados” daquela situação.

Por sinal, se tratando do ponto de vista técnico, o confronto citado é a prova de que o pessoal que Neill leva para seus trabalhos realmente sabe construir uma atmosfera e um desenrolar muito propícios à ação exigida pelo roteiro. Além da montagem econômica de Julian Clarke e Mark Goldblatt, há de se destacar o design de som do filme, que vai desde as minúcias da movimentação e voz de Chappie aos grandes momentos de embates. Hans Zimmer, que pouco desaponta, realiza uma trilha deveras comum, deixando a real pegada que o filme merece à escolha das músicas do tal Die Antwoord, que surpreende.

No mais, Chappie ainda é um filme extremamente recomendável. Não gosto muito dessas comparações, mas senti o teor bem-humorado de Distrito 9 aliado aos bons toques de seriedade que Elysium exagerou. Alguém mais quer um action-figure de Chappie?

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Chappie - EUA 2015 - Direção: Neill Blomkamp | Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tachell | Com Sharlto Copley, Dev Patel, Ninja, Yo-Landi Visser, Sigourney Waver, Hugh Jackman
 
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