quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Em sua abordagem bela e intimista, 'Dois Dias, Uma Noite' traz um drama sensível

 

“É testemunha de Jeová?”, pergunta uma moça prestes a atender quem acaba de bater à sua porta. Quem está ali é Sandra (Marion Cotillard), que ficou afastada do trabalho por conta de uma depressão e que agora precisa conseguir votos de seus amigos da empresa para não ser mandada embora. Manu (Fabrizio Rongione), seu marido, a ajuda nesta empreitada tão real e sensível dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Além de trabalhar temas tão delicados e superficialmente explorados pelo cinema comercial, Dois Dias, Uma Noite traz atuações surpreendentemente belas. 

Quase que refletindo o imaginário popular quanto à depressão, o cinema pouco acertou quanto a sua representação nas telas. Por aqui, os Dardenne conseguem trazer uma profundidade interessante para toda a situação vivida por Sandra, muito bem interpretada por Cotillard em suas minúcias e expressões. Além de toda a discussão envolvendo medicação, superação e a importância de pessoas queridas no tratamento, o filme coloca também um contraste admirável entre a ganância de certas pessoas e a luta de quem sofre por conta da doença. Afinal, o que vale mais: ajudar a companheira de trabalho a permanecer com seu emprego e ainda dar foça a ela ou ganhar um bônus? 

Sem extravagância, o longa de personagens francês também adora trabalhar, com bastante precisão, sua câmera, que acompanha com intimidade as figuras ali presentes e trilha a busca da moça interpretada por Cotillard. Pode até ser particular o drama vivido por ela, mas suas situações são completamente universais. Desta forma, não soa estranho ouvir, por exemplo, Sandra dizer a Manu o fato de não transarem há quatro meses e isto representar uma situação difícil na vida do casal. Assim como, em todos os momentos da projeção, a questão de se “colocar no lugar do outro” é peça-chave no desenvolvimento da obra. “Você não tem coração”, diz Sandra a Jean-Marc, vivido por Olivier Gourmet, que colocou aos seus empregados a decisão de escolher entre o dinheiro e o emprego da moça. 

Se os diálogos factíveis e naturais representam a facilidade dos irmãos ao trabalharem com suas criações, não há, em nenhum momento, uma vitimização/coitadização da personagem. Pelo contrário, vemos uma Sandra forte, mulher que passou por um problema sério há pouco tempo e que agora vive uma situação quase tão problemática quanto. Belo e emocionante, Dois Dias, Uma Noite só é pequeno em sua duração.

9/10

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Dois Dias, Uma Noite (Deux jours, une nuit) - Bélgica 2014 - Direção e roteiro: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne | Com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée e Olivier Gourmet
 
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