sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Tirando a poeira de Watchmen

 

Watchmen é nada menos que a obra-prima de um gênio. Em 1983, Alan Moore publicou, na revista britânica Warrior, a série V de Vingança (texto aqui), que chamou a atenção de todos, inclusive do mercado norte-americano. E após ir para os EUA trabalhar para a DC e revitalizar o título Monstro do Pântano, decidiu escrever uma maxissérie com heróis secundários da editora que não interferisse no universo regular. Com as ilustrações do talentosíssimo Dave Gibbons, com quem Moore tinha uma grande facilidade em trabalhar, e colorização de outro cara brilhante, John Higgins, em 1987, era lançada a maxissérie mensal em 12 edições que mudou, para sempre, o jeito de se fazer quadrinhos de super-heróis.

Uma das Graphic Novels mais influentes de todos os tempos e um eterno bestseller, WATCHMEN só cresceu em estatura desde sua publicação original, como minissérie, em 1986. Esta edição de luxo, com capa dura, papel especial e formato diferenciado, traz a lendária saga escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, totalmente recolorida digitalmente por John Higgings, o colorista original. Não apenas isso, o volume de 460 páginas também apresenta uma quantidade de extras jamais vista no Brasil, trazendo trechos do roteiro original, esboços de Gibbons, comentários sobre os personagens, textos dos criadores e mais. Uma edição primorosa que não pode faltar na estante de nenhum colecionador. O ano é 1985. Os Estados Unidos são uma nação totalitária e fechada, isolada do resto do mundo. A presença de arsenais nucleares e dos chamados super-heróis mantém um certo equilíbrio entre as forças do planeta... até que o relógio do fim do mundo começa a marchar para a meia-noite e a raça humana para um abismo sem-fim. A sombria e inigualável trama tem início com ilusões paranóicas do supostamente insano herói Rorschach, um dos Watchmen que patrulhavam os EUA décadas atrás. Mas ele estaria realmente insano ou na verdade teria descoberto uma sórdida conspiração para assassinar super-heróis -- ou, pior ainda, milhões de civis inocentes? Fugindo da lei, Rorschach junta-se a ex-companheiros do passado em uma desesperada tentativa de salvar suas próprias vidas... e o que acabam descobrindo, além de abalar suas estruturas, poderá alterar o próprio destino do planeta Terra! Seguindo duas gerações de heróis mascarados, desde a Segunda Guerra até os tensos anos da Guerra Fria, surge esta pioneira epopéia de ódio, amor, reencontros impossíveis, grandes reviravoltas e muita ação, como só a criatividade de Alan Moore e Dave Gibbons poderia conceber! WATCHMEN foi considerada pela revista TIME uma das cem melhores obras em língua inglesa de todos os tempos. [Sinopse do Skoob]

Li e assisti a várias resenhas dessa graphic novel, tanto antes quanto após lê-la, e nenhuma, absolutamente nenhuma, consegue passar para o leitor/espectador sequer uma parte das inúmeras nuances que estão contidas na obra. Acho que isso se deve, em parte, à característica humana de se deixar tomar pela emoção ao falar das coisas que mais admira. Resenhar uma obra de Alan Moore, especialmente esta, é uma tarefa muito difícil e perigosa para qualquer fã de quadrinhos. Outra dificuldade tem a ver com o fato de existir dentro da obra várias histórias em camadas, e ao resenhar a HQ deve-se escolher quais delas devem ser comentadas. O que é uma tarefa árdua. Penso que falar de um clássico – seja do cinema, da Literatura, dos quadrinhos – é difícil porque, resumindo, ele não apresenta apenas uma visão de mundo, mas encerra em si UM mundo. E mundos são complexos demais.


Watchmen trata, fundamentalmente, da humanização e desconstrução dos heróis. Alan Moore pensou e passou para o papel como seria, de uma forma bem realística, se os super-heróis existissem realmente: como isso afetaria a sociedade, a política, a religião, os costumes, a tecnologia, a corrida espacial e tudo o mais. Como todos nós reagiríamos a justiceiros encapuzados que saíssem por aí lutando contra o crime? E se algum, ou alguns deles, tivessem super-poderes de verdade? Seria considerado um deus? Uma abominação? Um perigo para a humanidade? E quais seriam as verdadeiras razões para pessoas se vestirem de maneira espalhafatosa e arriscarem suas vidas para praticar heroísmo: um desvio psicológico (ou sexual), nobreza de espírito, tédio, desafio às autoridades? 

Escrita em um momento de clímax da Guerra Fria, em que pairavam sobre a cabeça do mundo a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial – desta vez nuclear – e a perspectiva de aniquilação total, a HQ transpira o medo, a desesperança e a neurose dos anos 1980 (assim como V de Vingança). E um quadrinho tão adulto, com temas adultos e linguagem adulta, mostrou para o mundo que a 9ª arte poderia – e deveria – ser também voltada para o público adulto. Sua importância e qualidade são tamanhas que foi considerada, pela revista Time, uma das 100 obras da Literatura mais importantes do Século XX (a única HQ da lista), ao lado de livros como 1984 de George Orwell (que exerceu grande influência sobre a obra de Alan Moore, como ele mesmo admitiu), dentre tantos outros grandes clássicos. 

A edição publicada pela Panini Comics há alguns anos e republicada este ano – estava esgotada em todo lugar – tem o preço de capa de R$ 110, mas pode ser encontrada por muito menos (paguei R$ 66 na minha, comprada na editora FNAC). É uma edição definitiva e de luxo, com um acabamento fantástico, contendo papel especial, capa dura e extras fenomenais (que te permitem entrar na cabeça de Alan Moore no começo do processo de criação e entender de onde ele tirou muitas das suas ideias para os personagens e roteiro). É uma edição que vale muitíssimo à pena ter na estante e que recebeu o tratamento gráfico que merece (a recolorização digital feita pelo próprio John Higgins ficou espetacular). 

Acho que não preciso nem dizer que recomendo a leitura de Watchmen. Levanta logo dessa cadeira e leia!

10/10
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Watchmen - EUA 1987 - Alan Moore (roteiro), Dave Gibbons (arte) e John Higgins (cores)
 
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