quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Tirando a poeira de Habibi

 
Habibi é a saga de dois escravos fugitivos, unidos e separados pelo destino, vivendo no limite que separa a tradição da descoberta. Dodola, uma garota perspicaz e independente, foge de seus captores levando consigo um bebê. Eles crescem juntos no deserto, sozinhos em um navio naufragado na areia. Em meio a sentimentos cada vez mais conflitantes, os dois passam o tempo contando histórias. Assim, somos apresentados também à origem do islamismo e de suas tradições, conforme as narrativas se combinam numa trama de aventura, romance, filosofia e tragédia. [Sinopse retirada da Companhia das Letras].


Depois de ficar mundialmente conhecido com Retalhos, HQ de 2003, Craig Thompson volta a brilhar com um projeto ousado que lhe rendeu cerca de sete anos de pesquisas acerca do tema principal. Assim como em sua obra mais famosa, Habibi também é uma história de amor. Desta vez, o autor explora a trajetória de dois escravos que estão presentes em uma sociedade islâmica.

Desde o começo da obra, percebemos que o autor fez valer bastante todos esses anos de pesquisa. Ele soube mesclar uma trama interessante com referências essenciais do Islã e do Corão. Todos os versos citados do livro sagrado tem um sentido na história e são fundamentais para o entendimento desta. A presença de versos possibilita uma trama mais psicológica em alguns momentos, em que o leitor deverá pensar um pouco para entender qual a relação entre eles e os personagens da graphic novel.

As referências presentes na trama formam excelentes diálogos. Seja nas histórias contadas por Dodola a Zam (os protagonistas) em que os versos do Corão são narrados de forma literal ou nas partes em que ocorre a ação central da trama, os diálogos foram construídos com muito cuidado e se tornaram um dos pontos fortes da obra.

Outro grande destaque da narrativa é o desenvolvimento dos personagens. Todos os personagens são muito bem desenvolvidos e possuem uma importância fundamental na trama. Tudo bem que o foco é em Dodola e Zam, mas outros, como o Sultão do palácio e até mesmo um simples pescador, se tornam essenciais e formam personagens bacanas.

Para deixar a história ainda mais completa e compreensível, Thompson utilizou um formato bem interessante na HQ, que possibilitou uma grande interação entre o texto e a arte. Algumas páginas são repletas de grandes imagens e textos, enquanto outras requerem um número maior de imagens e poucos textos. Essa diferença estética torna a leitura ainda mais agradável.

Além de fazer um belo trabalho na narrativa, o autor também acertou a mão em sua arte. Em todas os quadros, o autor soube transformar uma trama tão "pesada" e psicológica em uma arte simples e tranquilamente compreensível. O desenvolvimento de um mundo islâmico atual, o alto teor sexual da história e os versos do livro sagrado islâmico formam uma arte que, apesar de ser bastante simples, não deixa de ser excelente.


Craig Thompson nos trouxe uma excelente história com uma bela arte em Habibi. A forte referência do mundo Islã representado na atualidade e uma grande presença da sexualidade tornam a revista uma obra de amor com fortes críticas sociais e realidades presentes no mundo oriental. A graphic novel é, sem dúvidas, uma obra-prima e um dos melhores quadrinhos dos últimos anos.

10/10
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Habibi - EUA 2011 - Craig Thompson
 
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