sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Tirando a poeira de Fahrenheit 451

 

Guy Montag (Oskar Werner) se vê adentrando num desconhecido e maravilhoso mundo ao ler o primeiro livro de sua vida. O problema é que o mesmo rapaz é um bombeiro que, neste distópico período da humanidade, tem como obrigação queimar todo tipo de material impresso. Livros enganam as pessoas, são propagadores de infelicidade e tornam a sociedade desigual. Neste mesmo momento, Montag se torna amigo de Clarisse (Julie Christie), uma professora que está prestes a ser demitida e mantém suas ressalvas quanto ao método totalitário para a extinção dos livros.

Em um filme que contrasta bastante com as demais obras de sua carreira, François Truffaut se mostra pouco cuidadoso ao trabalhar com o estabelecimento de uma distopia. É possível perceber como o cineasta deixa Fahrenheit 451 tão limitado ao drama vivido pelo protagonista que acaba abrindo mão de explorar a grandeza deixada pela obra de Ray Bradbury. Vemos o meio de transporte daquele universo, a arquitetura das casas suburbanas e o quartel militar (esse vemos até demais). Por outro lado, o meio urbano e a influência direta deste autoritarismo são deixados de lado pelo cineasta. Sair de histórias tão centradas no desenvolvimento de personagens e na análise profunda destes para apostar numa ficção científica custou bastante à Truffaut. 

Quanto aos personagens, o próprio roteiro (que também teve o francês em sua elaboração) os deixa autoexplicativos demais. Com a atuação limitada de Oskar Werner, a unidimensioanlidade de Montag se torna ainda mais visível com seus diálogos bobos e nada densos. Ver o personagem explicando à Clarisse o porquê de “fahrenheit 451” estar bordado em seu uniforme é se sentir subestimado ao extremo pelo roteiro. Mesmo as leituras mais interessantes possíveis de serem obtidas da obra (como a relação com a proibição de drogas psicoativas) são forçadas pela história e pouco abrem espaço para novas. Truffaut fecha ao máximo o plano nas histórias em quadrinhos para que vejamos como elas não têm letras, Truffaut fecha o núcleo de personagens para que adentremos naquele drama em específico, Truffaut fecha a carga de significações para que acreditemos na televisão como soberana e total influenciadora de pensamentos da modernidade. Poxa, Truffaut, não se pode fechar tanto uma história da vastidão e grandiosidade de Fahrenheit 451!


Ainda assim, o filme não é de todo ruim, a trilha sempre pulsante de Bernard Herrmann é ótima.  Já os planos e movimentos de câmera de Truffaut, apesar de conterem seus problemas nas significações que desejam abordar, são interessantíssimos. O diretor mescla o estilo norte-americano de quadros às suas movimentantes câmeras com alguma coisa que havia ali de nouvelle vague, ritmando a história à sua maneira. Em um filme claramente de estúdio, é engraçado perceber como parece um pouco apagada a tal liberdade estética do movimento do qual o diretor era um dos percursores. Ainda assim, Truffaut consegue imprimir ali sua autoralidade artística.

Eu queria ter gostado mais de Fahrenheit 451, queria mesmo. Aprecio bastante os demais trabalhos do cineasta e estive, desde que tomei conhecimento desta adaptação, muito curioso quanto à abordagem que Truffaut teria. Nesta questão, ainda que não seja lá grandes coisas, No Mundo de 2020 soube como corrigir, ou ao menos contornar, o que de problemático fez o francês. Sem apostar na grandiosidade do universo proveniente da obra original, François fez de Fahrenheit 451 um filme assistível, mas que não faz jus ao patamar alcançado por seu nome e bom trabalho.

5/10
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Fahrenheit 451 - Inglaterra 1966 - Direção: François Truffaut - Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard, David Rudkin, Helen Scott e Ray Bradbury (livro) - Com: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring.
 
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