segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tirando a poeira de Bilhões e bilhões - Reflexões sobre a vida e morte na virada do milênio

 

O astrônomo Carl Sagan foi, provavelmente, o mais influente divulgador da ciência de todos os tempos. Nos mais de trintas livros que editou e escreveu, manteve-se fiel ao compromisso do cientista: representar a realidade como ela se mostra quando submetida ao mais rigoroso escrutínio, sem deixar lugar para o misticismo, a religiosidade e as especulações sem base na experiência sensível.

Bilhões e bilhões traz dezenove artigos dedicados a temas variados, como a possibilidade de haver vida em marte, o aquecimento global e a impressionante luta de Sagan contra a doença que acabou por vencê-lo. O tema que une os artigos é, enfim, a vida e a morte: do planeta, do Universo, do ser humano coletivo e individual. É última obra de um pensador admirável, que acreditava na capacidade do homem de tornar o mundo melhor. [Sinopse retirada da contracapa do livro]

Abandonei a leitura de Variedades da experiência científica: Uma visão pessoal da busca por Deus por acha-lo um pouco desconexo quanto aos temas tratados pelo autor. Afinal, era uma compilação póstuma de alguns escritos de Sagan e, obviamente, faltava alguma coisa ali. Fui então para Bilhões e bilhões, livro que, sim, saiu postumamente, mas que foi escrito e organizado de cabo a rabo pelo autor (com algumas coisinhas que Ann Druyan, sua esposa, arrumou aqui e ali). Em sua última publicação, o astrônomo trata o leitor como um novo aluno de uma turma de ciências e o leva a pensar e questionar as questões às quais seu livro se propõe.

Dividido em três partes, Bilhões e bilhões traz uma coesão de temas e desenvolvimento absurdos. Carl se dispõe a falar sobre tudo, desde a forma como o instinto de caça pode ter engendrado o gosto que temos pelos esportes coletivos à polêmica questão do aborto (este que é um dos melhores capítulos de toda a publicação). O norte-americano entende como nós, seres com pouco conhecimento científico que passaram por alguns perrengues na época de escola, precisamos de algumas explanações mais gerais em certos assuntos. Para isto, todos os capítulos desenvolvem bem os conceitos a serem aplicados nas ideias propostas e tudo caminha muito bem.

Como estamos falando de Carl Sagan, o responsável pela marcante Cosmos, as metáforas e a filosofia estão presentes em peso. Se o assunto é ciências vs. religião, o autor logo propõe um simples consenso para acabar com toda esta bobeirada. A citação já fala por si só:
“Talvez o subproduto mais angustiante da revolução científica tenha sido acabar com muitas de nossas crenças mais acalentadas e consoladoras. O proscênio antropocêntrico bem-arrumado de nossos ancestrais foi substituído por um universo imenso, frio e indiferente, no qual os humanos são relegados à obscuridade. Mas vejo surgir na nossa consciência um universo de uma tal magnificência e com uma ordem tão intricada e elegante que supera qualquer coisa imaginada pelos nossos antepassados. E se grande parte do universo pode ser compreendida em termos de algumas leis simples da natureza, aqueles que desejam acreditar em Deus podem com certeza atribuir essas belas leis a uma razão que sustenta toda a natureza. Na minha opinião, é muito melhor compreender o universo como ele é realmente do que imaginar um universo como gostaríamos que ele fosse.”
E isso não é nem 1% das reflexões do livro. Em se tratando de vida extraterrestre...
“Se a inteligência extraterrestre for encontrada, nossa visão do universo e de nós mesmos vai mudar para sempre. E, se depois de uma busca longa e sistemática não encontrarmos nada, teremos talvez calibrado um pouco da raridade de preciosidade da vida sobre a Terra. De qualquer modo, é uma pesquisa que vale a pena.”

Revisitar os capítulos mais fisgantes e instigantes de um livro a fim de relê-los e/ou sugerir uma nova interpretação àquilo é uma tarefa muito gostosa. Bilhões e bilhões não apenas possibilita este exercício, como obriga o leitor a fazê-lo por diversas outras vezes. Desta forma, o livro se deixa ser devorado por alguns breves momentos e logo passa a ser folheado novamente. Assim como as ideias de seu autor, Billions and Billions: Thoughts on Life and Death at the Brink of the Millennium é uma obra que não têm data para deixar o cosmos.

9/10
-

Bilhões e bilhões - Reflexões sobre a vida e morte na virada do milênio (Billions and Billions: Thoughts on Life and Death at the Brink of the Millennium) - EUA 1997 - Carl Sagan e Ann Druyan (epílogo e edição)
 
© 2014. Design por Main Blogger | Editado e finalizado por Guilherme e Carlos