sábado, 1 de novembro de 2014

Crítica - Relatos Selvagens

 

Há dias em que nossa paciência quase inexiste diante das situações que nos tiram do sério. Eu não sou de perder tanto a cabeça dessa forma, mas os protagonistas de Relatos Selvagens sim, e como! No filme escrito e dirigido por Damián Szifron, as seis histórias apresentadas antologicamente se conectam por tratarem do que há mais de violento, vingativo e, vejam só, selvagem no ser humano. 

Com mais cara de curta-metragens do que historinhas pertencentes a um longa, são excelentes todas as seis partes da obra argentina. Szifron (cineasta muito promissor do cinema hermano) trabalha o roteiro de cada historinha de forma a deixa-las com um começo, meio e fim estabelecidos ao espectador. Neste aspecto, o cineasta não nos subestima, mas subverte estes valores em seus personagens e nas próprias tramas, que nem beiram o sensacional, o ultrapassam mesmo. Há de se destacar também como funciona a sequência escolhida para estes “curtas”, Szifron deixa o melhor para o final. O que não quer dizer que as outras não sejam boas, é difícil sair com a “melhor” claramente definida.

Seja nas decepções vividas por Simón (Ricardo Darín), engenheiro que tem seu carro rebocado repetidas vezes e se rebela contra o sistema, ou no casamento pra lá de batuta de Romina (Erica Rivas) e Ariel (Diego Gentile), o humor negro não desaparece e nem perde o ritmo. As situações são tão absurdas, escrotas e radicais que a única alternativa que nos resta é... rir. A desgraça dos outros nunca foi tão engraçada, o problema é que esta está tão perto pra gente como esteve pra eles.


Sem saber muito o que esperar, entrei em “Relatos Selvagens” mais perdido que cego em tiroteio. Desanimei quando descobri que se tratava de uma antologia, mas percebi o quanto havia gostado do que o filme tinha me apresentado até ali e logo me empolguei novamente. É assim, nesse turbilhão de sentimentos misturados com ódio, fúria, violência e tudo o que há de ruim que funciona o longa-metragem. Pablo Villaça, no videocast em que fala sobre o filme, lembra o fato de que “é difícil não gostar de um curta, quando você começa a não gostar ele acaba”. Como ressalto pela milésima vez, este não é o caso por aqui, mas se você não estiver curtindo muito uma das histórias (o que duvido bastante), ela logo passará e outra chegará tão rapidamente quanto os ataques de fúria dos personagens.

Duas coisas eu sabia antes de assistir ao filme, a primeira é que Almodóvar estava envolvido (é um dos produtores) e a segunda é que Darín encarnava um personagem. Em se tratando das atuações, o trabalho é esplêndido, com destaque ao próprio Ricardo Darín, a Erica Rivas, Walter Donado e Leonardo Sbaraglia.


Como quem bem pode dizer o ditado “quem ri por último, ri melhor”, Damián Szifron não apenas repete estas sábias palavras, como aplica seu significado a Relatos Selvagens, fazendo com que o espectador ria de todo este tragicômico que permeia sua grande obra. Muito bem produzido e com uma trilha que ironiza tão perfeitamente as situações, o longa argentino merece lugar de destaque nas recentes produções latino-americanas e pode até brigar por uma vaguinha no Oscar dos estrangeiros.

[MUITO RECOMENDADO]
 
© 2014. Design por Main Blogger | Editado e finalizado por Guilherme e Carlos