sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crítica - Interestelar (Ítalo Lo Re)

 
Texto escrito pelo autor convidado Ítalo Carvalho Lo Re.


Estonteante. Esse é o primeiro adjetivo do qual faço uso para falar de Interestelar, filme de ficção científica do renomado diretor Christopher Nolan (Trilogia Batman: 2005, 2008 e 2012; O Grande Truque: 2006; A Origem: 2010). 

Estonteante, tanto no mau como no bom sentido, porque foi com essa sensação sobre o que tinha visto que eu saí do cinema na terça-feira (04/11). O diretor, provendo-se de um intrigante roteiro escrito em parceria com seu irmão Jonathan Nolan e que compilou as mais diversas informações no que diz respeito à física quântica, tratou de realizar um filme que certamente fará bastante sucesso, muito em conta dos efeitos especiais metodicamente regulados para que Interestelar não virasse um Transformers da vida, da trilha intrigante do sempre elogiável Hans Zimmer e também das atuações dignas de Oscar de Matthew McConaughey (como Cooper), Anne Hathaway (Dra. Brand) e Jessica Chastain (Murph adulta). Mas será que se trata de um filme realmente bom? Discorramos.

A trama, em breve sinopse, começa mostrando o cotidiano de Cooper (ex-piloto de naves aeroespaciais da NASA) que, tendo mudado o rumo de sua vida tornando-se um agricultor, se depara com intrigantes fenômenos acontecendo no quarto de sua filha Murph e, acompanhado da geniosa menina, vai atrás de respostas. No ínterim de tempo dessa busca, o problema pelo qual o mundo é afrontado é apresentado: a futura escassez de recursos ocasionada pela desenfreada exploração da terra pelos humanos, tornando emergencial o encontro de outro planeta para a perpetuação da raça humana. É o velho clichê de filmes americanos de que o mundo está acabando e: “Óh, o que vamos fazer?!”. 

Como solução mais pragmática, a NASA, tendo em vista a recente abertura de um buraco de minhoca perto de Saturno que faz ligação com outra galáxia (motivando-os a pensar que há vida ou chance da mesma fora da Via Láctea), organiza-se em uma delicada expedição com o intuito de estudar a compatibilidade do próprio planeta Terra com os outros planetas dessa misteriosa galáxia. Cooper é então eleito um dos quatro tripulantes dessa expedição, deixando sua filha Murph para trás e, mesmo tendo a incerteza da volta dado a periculosidade da viagem, prometendo à mesma que retornaria. A partir daí a história se desvencilha em inúmeras e diversas tramas dentro de um extenso longa de 169 minutos, que abrange tanto temas totalmente humanos (como o conceito de amor e relações pessoais) como temas do âmbito dos estudos da física (como nos diversos desafios à tripulação para manter-se viva e em busca de seus objetivos), prendendo o expectador, e aqui vos fala um ex-prisioneiro, cada vez mais. 

É muito em conta dessa abrangência e ímpeto em se tratar de muitíssimos assuntos numa só produção que o filme, apesar de muito bem cotado pelo IMDb, recebeu algumas críticas negativas, como a do respeitado Pablo Villaça. Apesar de que, ao menos para mim, as pequenas falhas de Nolan tanto na sobreposição de vários assuntos como na questão dos erros no que diz respeito à mise-en-scène (que seria a falha do diretor no enquadramento da câmera em determinados momentos tornando a situação mais difícil de ser entendida), - ambas citadas pelo crítico belo-horizontino e que podem, com um pequeno esforço, ser notadas –, são bem menores do quão grandioso é Interestelar. Vá você assistir para ver o que acha. A estreia nos cinemas do Brasil aconteceu ontem (quinta-feira, 06/11).

Há ainda um fator intertextual que muito me foi evocado enquanto eu estava no cinema e que remete a uma relação em específico: a do diretor Christopher Nolan no trato com seus filmes. Para mim, ficou muito claro, enquanto eu ainda assistia ao filme, o espírito transgressor de Nolan em revolucionar gêneros. O que primeiramente pôde ser observado na Trilogia Batman, foi agora reforçado com Interestelar. Nolan foi (ou melhor, é) capaz de se apropriar de gêneros como filmes de super-heróis ou de ficção científica, no caso, e humanizá-los de tal forma que, mesmo contendo algumas situações ainda bem improváveis e inverossímeis, nós passemos a acreditar que é possível. Foi assim em Batman, com humanizações de personagens antes muito caricatos como principalmente o Coringa e até mesmo próprio Batman, e voltou a ser em Interestelar, superprodução que, pra mim, trouxe uma nova ótica de ficção científica e de seu padrão mais comum. 

Eu vi o filme acreditando que tudo aquilo poderia ser real em um futuro hipotético, por mais improvável que seja. Eu enxerguei todos os problemas pelos quais os personagens passavam como podendo ser os meus e de todos que me entornam. E acredito que isso, o poder e habilidade de Nolan em fazer com que algo assim aconteça, devem ser valorizados.


Para não delongar mais, exponho aqui minha pessoal satisfação em relação ao filme e consequente vontade de indicá-lo pra quem quer que seja, inclusive você, independente dos pequenos deslizes do diretor que fazem com que algumas partes fiquem difíceis de se entender. Interestelar é, sem dúvidas, um bom filme. Agora se é ótimo, vá você assistir e descubra. Eu achei.

8.5/10
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Interestelar (Interstellar) - EUA 2014 - Direção: Christopher Nolan - Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan - Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Wes Bentley, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Mackenzie Foy, 
 
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