quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Crítica - Interestelar (Carlos Oliveira)

 

“Se não fomos agraciados com um conhecimento instintivo que nos mostre o que fazer para que nosso mundo regido pela tecnologia seja um ecossistema seguro e equilibrado, devemos descobrir como fazê-lo. [...] Não deve ser tão difícil assim. Os pássaros – cuja inteligência tendemos a denegrir – sabem o que fazer para não sujar o ninho. Os camarões, com cérebro do tamanho de partículas de fiapos, sabem o que fazer. As algas sabem. Os microorganismos unicelulares sabem. Já é hora de sabermos também.” – Carl Sagan 
Em poucos anos, a vida na Terra se tornará inviável aos humanos de Interestelar. Tendo seu planeta carente de recursos naturais que antes se mostravam abundantes e infindáveis, resta à raça humana alçar arriscados voos universo afora em busca de um planeta habitável. Cooper (Matthew McConaughey) é designado à liderança do grupo que viajará através de um buraco negro numa das missões para encontrar este novo local. Juntos a ele estão Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley). Na Terra, sua filha Murph (Mackenzie Foy e Jessica Chastain), que o vira partir quando ainda era criança, agora é uma das mais qualificadas cientistas no que tange à sobrevivência dos humanos que ainda residem na Terra.  

Em um de seus filmes mais ambiciosos, Christopher e Jonathan Nolan bolam uma trama pra lá de audaciosa e acertam em cheio naquilo que o longa se propõe. Alguns deslizes até incomodam, mas não tiram a chance real de esta ser a obra-prima dos britânicos.


Na Terra, é possível sentir a situação decadente e desesperadora na qual se encontra nosso planeta. A poeira é real, pode ser vista nas desesperadoras fumaças, nas brisas carregadas de sujeira ou ser ouvida na angustiante tosse de um dos netos de Cooper. No espaço, a beleza do desconhecido mistura-se à sensação de como  um pequeno deslize pode levar por água abaixo toda uma missão que porá em um risco ainda maior a sobrevivência humana. As duas linhas se conectam, inteiram uma a outra e dão a sustância necessária para que o filme se desenvolva. Os Nolan sabem disso, não é à toa que os desfechos e soluções escolhidas se apoiam inteiramente na relação estabelecida por estas linhas. As resoluções transcendem ao “real”, à compreensão que temos de tudo isso ou parecem demasiada exageradas? É bom não esperar algo muito normal vindo destes rapazes.

Por falar neste aspecto, o roteiro bate na mesma tecla da exposição durante todo o primeiro ato. Característica marcante dos roteiros de Jonathan, os diálogos expositivos não são tão maçantes quanto possam parecer os de, por exemplo, A Origem. Por aqui, até cumprem seu papel na trama sem interferirem muito no ritmo dos acontecimentos. O final (não se preocupe, não daremos spoilers) deixa poucas pontas soltas se comparado com os dos demais trabalhos de Christopher. Porém, aquilo que leva ao desfecho te deixará matutando por alguns dias a fio. 

Dentre os personagens, Cooper se destaca pela densidade com a qual é explorado e tem uma profundidade absurda. Muito vem da belíssima atuação de Matthew McConaughey, mas o desenvolvimento proporcionado pelo roteiro o coloca em situações propícias para que tanto Christopher quanto Matthew pudessem deixa-lo tão marcante. Numa das cenas na nave Endurance, Cooper vê as mensagens em vídeo deixadas por seus filhos nos últimos, chutemos, 20 anos. Não há como impedir que seus olhos suem. Tais relações familiares são bem feitas e exalam naturalidade. Estas também estão presentes na personagem de Anne Hathaway, que conduz bem sua personagem, apesar de esta não apresentar muitas características que a melhorassem. Ainda assim, todos os personagens têm suas motivações, o que torna tão complexos alguns momentos-chave da trama. 


Se tem alguém melhor do que os próprios irmãos para comentar este filme, Hans Zimmer é este alguém. Com o intuito de não apenas descrever o que acontece em cena ou referenciar obras consagradas do gênero, o compositor envolve Interestelar num espectro musical que o filme merece, sendo, mais uma vez, um dos responsáveis pela execução magistral do trabalho de Christopher Nolan. Alguns dicionários apontam "próprio de mestre" como um dos significados de "magistral". Bom, não posso dizer que estou exagerando.

10/10
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Interestelar (Interstellar) - EUA 2014 - Direção: Christopher Nolan - Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan - Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Wes Bentley, Jessica Chastain, Matt Damon, Michael Caine, Mackenzie Foy, 
 
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