sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tirando a poeira de Um Corpo que Cai

 
Aclamado por muitos e considerado um dos melhores filmes já feitos, Um Corpo que Cai chegou aos cinemas em 1958. Dirigido por Alfred Hitchcock, o longa conta com James Stewart e Kim Novak em seu elenco. Ao contrário do que a maioria pensa, o filme passou longe de ser um sucesso entre a crítica ou em bilheteria, obtendo US$ 7 milhões em território americano. De algumas décadas pra cá que este grandiosíssimo trabalho de Hitchcock tem ganhado o destaque que merece. 

Em São Francisco, o detetive aposentado John 'Scottie' Ferguson (James Stewart) sofre de um terrível medo de alturas. Certo dia, encontra com um antigo conhecido, dos tempos de faculdade, que pede que ele siga sua esposa, Madeleine Elster (Kim Novak). John aceita a tarefa e fica encarregado da mulher, seguindo-a por toda a cidade. Ela demonstra uma estranha atração por lugares altos, levando o detetive a enfrentar seus piores medos. Ele começa a acreditar que a mulher é louca, com possíveis tendências suicidas, quando algo estranho acontece nesta missão. [Sinopse do AdoroCinema

Quando assisti ao filme, fiquei bastante surpreso com sua qualidade e já o considerava um de meus favoritos. Meu segundo contato, definitivo para que eu passasse a amar a obra, fez com que minha opinião a respeito de direção mudasse drasticamente. Hitchcock não só adapta uma excelente história, como dá significação a praticamente tudo que coloca em cena. 


D’Entre Les Morts, livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, foi adaptado para a tela por Alec Coppel e Samuel A. Taylor. Os acertos da dupla passam pelo estabelecimento conciso de seus personagens, que acontece com o Ferguson logo nos primeiros minutos, até o ótimo ritmo que a história toma para suas revelações e acontecimentos. Conhecemos, logo de cara, a situação traumática pela qual passou o protagonista, até porque quase que a vivenciamos por meio da cena em que John tem seu primeiro surto de vertigem. O que dizer dela? Acho que nosso post sobre o Dolly Zoom já explica bem. 

Além de sua direção ritmada, Alfred Hitchcock traz diversas significações ao que põe em tela. O diretor tem um mise em scène eficientíssima e se apropria do vestuário para apontar a complexidade de seus personagens. Edith Head, que trabalhou em outros projetos de Hitch, é a responsável pelo figurino do longa. O verde e o vermelho são cores que, dadas as circunstâncias em que são inseridas, carregam toda uma carga de simbolismos à trama.  

Outro fator de igual importância para a composição das cenas é o uso das luzes e sombras. Nas várias sequências em que John segue Madeleine, a impressão que se tem é de que o personagem tornou-se uma mera sombra da moça, sempre à espreita e na escuridão. A fotografia de Robert Burks se encaixa à demanda das sequências e resulta num filme belíssimo. Não é a toa que o Perfect Shots já publicou vários planos do filme. 


É pelo bom desenvolvimento de personagens que facilmente nos identificamos e passamos a torcer por John Ferguson. Me senti cúmplice das maldades feitas ao protagonista não apenas por conhecer todo aquele maldoso esquema, mas por, assim como fez Madeleine, omiti-lo do pobre rapaz. Captando toda essa essência de um misto de culpa e medo, James Stewart atua memoravelmente e marca o personagem na história do cinema. Para não revelar nada demais, digo apenas que a versatilidade de Kim Novak a destaca das demais personagens femininas presentes nos filmes de Hitchcock. Há uma complexidade muito grande nos papeis da atriz e Novak não falha em nenhum deles. 

Bernard Herrmann é o responsável pela belíssima trilha sonora. Presentes em quase todos os 128 minutos do filme, as músicas de Herrmann pontuam o suspense e comentam de forma a acrescentar um valor artístico à obra. Alguns filmes poderiam, facilmente, ter suas trilhas retiradas e ninguém perceberia que algo está diferente, Vertigo não. 


Quando eu pensava que rever filme não mudava muito minha concepção sobre ele, Um Corpo que Cai veio me provar, com uma surra bem dada de qualidade e genialidade cinematográfica, que eu estava errado. Hoje em dia, Hitchcock é colocado no pedestal que merece e se você discorda é porque precisa (re)ver Vertigo e suas outras obras-primas. 

[MUITO RECOMENDADO]
 
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