quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tirando a poeira d'O Batedor de Carteiras

 
Sem motivos aparentes ou necessidades financeiras, Michel (Martin LaSalle) passa a furtar carteiras pelas ruas de Paris. Após perceber que tem obtido sucesso em seus crimes, Michel conhece outros batedores de carteira com quem passa a “trabalhar” em conjunto.


Duas coisas me chamaram bastante atenção no decorrer de Pickpocket, a primeira delas é a enorme semelhança que este tem com Taxi Driver, de Martin Scorsese. Já a segunda é como o furto realizado da forma correta e harmoniosa é bonito. Calma, já me levaram algumas coisas numas perigosas ruas de BH e nem de longe eu defenderia esse atroz crime. Acontece que Robert Bresson também concorda com isso, mas não deixa este motivo o impedir de realizar um verdadeiro balé criminoso.

Logo no início, Bresson nos apresenta ao protagonista da história e nos aproxima a ele com a narração em off e os planos focados em seu olhar. Suas empreitadas carregam uma tensão absurda, afinal, ele vai ou não vai ser pego dessa vez? Ás vezes torcemos para ele, ás vezes ficamos encima do muro, mas nunca nos pegamos torcendo contra Michel. Por que isso acontece? Talvez porque nós, espectadores com o privilégio de acompanhar a história a partir do ponto de vista do personagem, entendamos o quão confusa, conflitante e tortuosa é sua cabeça. Mas isso é motivo para concordarmos com seus crimes?

E é aí que Bresson entra novamente. Os primeiros furtos de Michel são um pouco atrapalhados, mas depois, meu amigo, não tem como não se apaixonar pelos tais balés criminosos que o diretor nos apresenta. Já com sua “equipe do mal” e munido de muita coragem, Michel faz a festa numa das cenas em que o vemos realizando sua arte de furtar num trem (e não é trem de mineiro, é trem mesmo). Nesta e noutras ocasiões, a montagem de Raymond Lamy é precisa e ritma muito bem os harmoniosos furtos.

Você já deve ter percebido que fundi as duas coisas que me chamaram atenção nos dois parágrafos acima. Não percebeu? Vorta lá então. Viu agora? É partindo da ideia de glamourizar o crime e as imoralidades que Scorsese também dirigiu grande parte de seus filmes. Não é a toa que Bresson – e principalmente Pickpocket – foi uma de suas inspirações para Taxi Driver.

Fitamos o olhar de Michel em quase todos os 75 minutos de projeção. Muito mais do que algo intrínseco ao roteiro ou característica da atuação de Martin LaSalle (lembrando que não desmereço, de forma alguma, nenhum dos dois), os enquadramentos do diretor nos apresentam a quem, de fato, é Michel por meio daqueles olhares. “O que quer?”, pergunta Michel ao inspetor interpretado por Jean Pélégri , “Que abra seus olhos”, responde o inspetor. Nenhum outro diálogo poderia resumir o filme tão bem. Agora dá pra perceber que eu realmente não desmereço nenhum dos dois aspectos acima citados.


O Batedor de Carteiras é um filme que deve, com toda certeza, ir para sua listinha. Muito, mas muito mais do que alguns filmecos hollywoodianos recentes, o longa escrito e dirigido por Robert Bresson é uma verdadeira aula de cinema. Não sei nem porquê fiz essa comparação, mas deu pra entender.

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