sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Crítica - O Oceano No Fim do Caminho

 
Neil Gaiman é o autor de Sandman, considerada uma das melhores graphic novels de todos os tempos, e de obras como Coraline, Stardust e Deuses Americanos, que entraram para o rol dos clássicos modernos. Presenteou-nos em 2013 com um dos livros mais bonitos que tive a oportunidade de ler.


Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano. [Sinopse do site da Intrinseca]

Gaiman nos faz relembrar a magia de se ter 7 anos, e como, nessa época, nossa mente é uma fábrica de estórias, imaginações e nosso mundo é habitado pelas mais diversas criaturas que tememos, e a vida é um mar de novidades e energia que nos carrega, como uma corrente contínua.

Esse não é um livro que se faz entender gratuitamente: ele exige do leitor a reflexão, a entrega, o mergulho. Você precisa se travestir de criança novamente para poder compreender a profundidade dos encontros, desencontros e descobertas desse garoto, desse personagem, assim como ele mesmo o faz ao longo do livro (a história se trata, essencialmente, de um homem de 47 anos lidando com as lembranças de fatos – imaginados, talvez, não se pode saber – quando ele tinha 7 anos).

A visão que o garoto tem dos adultos é um dos detalhes mais comoventes e interessantes da obra, e demonstra como acho que as crianças devem nos enxergar: como alienados de sua realidade, já que não compreendemos suas urgências, seu mundo de magia, e estamos presos em uma teia de necessidades inexplicáveis para elas.

É uma leitura que te consome emocionalmente, mas faz o tempo passar rápido. Que te preenche e te faz chorar. Que te “obriga”, amigavelmente, a rememorar sua infância, as dores e as delícias daquela época que nos parece, hoje, como um sonho: um sonho povoado onde ficção e realidade se misturam, e a compreensão do mundo é única, simples e construída com elementos essenciais.

[MUITO RECOMENDADO]
 
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