quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Crítica - Bidu - Caminhos

 


Em Bidu – Caminhos, os mineiros Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho reimaginam a forma como Bidu e Franjinha, os dois primeiros personagens criados por Maurício de Sousa, se tornaram melhores amigos. Quinta entrada do selo Graphic MSP, a HQ é a primeira da segunda leva de graphic novels que integram a coleção. 

Antes de escrever este texto, tive que ler a revista duas vezes. Na primeira, fiquei incrivelmente maravilhado com a belíssima história contada por meus conterrâneos e fui logo brincar com meu pequeno cachorro. Alguns dias passaram e quando peguei o notebook para escrever, cheguei à conclusão que deveria ler novamente. Na segunda vez, li para mim e para meu sobrinho de cinco anos, que ficou apreensivo com as aventuras do pequeno cachorro e se divertiu bastante com a HQ.  

Caminhos é isso. Sem muitos diálogos ou narrações, a graphic novel se molda à proposta de seus autores e parece tomar vida própria diante do desafio de narrar esta aventura canino-humana. 


Ao contrário do que aconteceu nas graphic novels anteriores, Garrocho e Damasceno utilizam bem pouco o que já se tem estabelecido dos personagens originais. O que não é ruim, visto que os artistas sabem como desenvolver seus personagens sem que aqueles que nem ao menos faziam ideiam do que se tratava, como meu sobrinho, deixem de aproveitar a leitura. Já os fãs podem se dar ao deleite de encontrar as referências e se divertirem internamente.

Como um leve e gostoso filme da Pixar, Caminhos apresenta uma trama coesa e simples, mas que utiliza de simbolismos e ferramentas visuais para estabelecer sua linguagem na história. Há de se destacar, obviamente, a chuva. Nenhuma palavra que eu aqui colocasse conseguiria descrever como são belos e simbólicos os momentos em que a chuva é utilizada. No mais, a história apresenta uma integridade necessária, com uma história com começo, meio e fim, sem se arrastar demais ou deixar algo de fora. 

Tornam ainda mais prazerosa a leitura desta Graphic MSP os magníficos traços, as delicadas cores e os balões fenomenais desta dupla belo-horizontina. Como fui descobrir ao final do lindo álbum editado por Sidney Gusman, os quadrinistas faziam no papel apenas os traços mais iniciais das páginas e dos personagens, sendo que o resultado final provem do trabalho computadorizado de Garrocho e Damasceno. E que trabalho. 

Como falei dos balões, a forma como as onomatopeias se encaixam nos quadros é linda de doer. É algo orgânico, é natural, é mágico. Os autores também acertam na comunicação dos cachorros. Nas histórias que conhecemos melhor, Bidu e seus amigos caninos conversam assim como os humanos. Por aqui, ainda há uma narração do cãozinho, mas ele se comunica com os demais por meio de uma linguagem absurdamente curiosa. Vale a pena conferir, falar demais só estragaria essa surpresa. 


Apesar de ter me apaixonado pelas duas primeiras revistas do selo, Pavor Espaciar e Ingá, ao meu ver, não estão no mesmo nível da coleção. Por outro lado, Bidu - Caminhos mistura o que de melhor todas as quatro propuseram e é resultado de um trabalho fantástico de seus idealizadores. 

Uma revista pouco verbal como a história de Chico Bento, mas tão simbólica e metafórica quanto Laços.

[MUITO RECOMENDADO]
 
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