quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Tirando a poeira de Volver

 
Raimunda (Penélope Cruz) é uma jovem mãe, trabalhadora e atraente, que tem um marido desempregado e uma filha adolescente. Como a família enfrenta problemas financeiros, Raimunda acumula vários empregos. Sole (Lola Dueñas), sua irmã mais velha, possui um salão de beleza ilegal e vive sozinha desde que o marido a abandonou para fugir com uma de suas clientes. Um dia Sole liga para Raimunda para lhe contar que Paula (Yohana Cobo), tia delas, havia falecido. Raimunda adorava a tia, mas não pode comparecer ao enterro pois pouco antes do telefonema da irmã encontrou o marido morto na cozinha, com uma faca enterrada no peito. A filha de Raimunda confessa que matou o pai, que estava bêbado e queria abusar dela sexualmente. A partir de então Raimunda busca meios de salvar a filha, enquanto que Sole viaja sozinha até uma aldeia para o funeral da tia. [Sinopse retirada do AdoroCinema]

Pode me forçar o quanto quiser, eu não me desapego de histórias escapistas tão cedo. Porém, aconteceu algo muito estranho enquanto eu assistia a “Volver”. De repente, estava imerso num filme que, logo em seu primeiro ato, já me prendia numa camisa de força para que eu o visse até o final. Mas o problema não está aí. Aquela história simples começava a tomar proporções absurdas e eu não sabia se ria das situações ou colocava minha cabeça pra pensar em toda maluquice que tava acontecendo. Mas o problema também não está aí. A absurda e inacreditável história então se afunilava e se mostrava mais crível do que qualquer outra, só não era a minha ótica ali reproduzida, mas a curiosa cabeça de Pedro Almodóvar. E assim foi meu primeiro contato com o diretor espanhol.

A menos que Almodóvar seja, de fato, uma mulher e esteja enganando a muitos este tempo todo, o cineasta realiza, com perfeição e minuciosidade, um excelente trabalho com a figura feminina. Suas personagens são tão fortes que pareciam ter tomado vida própria e dirigido o filme, inclusive nos momentos em que os homens centrais da trama passam a ser retratados. Raimunda chora ao reencontrar sua mãe e se mostra bastante confusa ao não saber o que fazer. Mas é ela que suja as mãos para enterrar seu marido e lhe dar o máximo de dignidade que este poderia ter, o enterrando em um de seus locais preferidos. Isto, é claro, depois de coloca-lo numa GELADEIRA.

Estas surpresas do roteiro são uma cereja no bolo que não poderia ter saído de uma padaria melhor. Como bem ressaltou Silvio Pilau, do CinePlayers, "os caminhos do roteiro de Almodóvar surpreendem, mas todos estão de acordo com a história e os personagens”. Tais surpresas vão ao encontro justamente daquele aspecto anteriormente citado: a absurdidade. De início fica meio difícil engolir as situações ali apresentadas, basta que entendamos, em poucos minutos, aonde estamos sendo levados até que toda aquela história tenha um fim.

Como um coercitivo e eficiente pastor, “Volver” prega seu evangelho já nos mostrando o quão inacreditáveis possam soar os primeiros ensinamentos. Mas não tem problema, nossa descrença logo é testada e aos poucos vai se perdendo em meio a fé que depositamos naquela história. Ao final, encontramos problemas e situações tão reais como as que vivenciamos nesta existência aparentemente real.


A trupe de atrizes a encarnarem as criações de Almodóvar, a princípio, não me pareceram ideais. Estava certo? De forma alguma. Eu até concordo que a premiação seja uma das mais injustas do cinema, mas ser reconhecido por Oscar quando se vem de um país como Espanha não é pra qualquer um(a). Penélope Cruz está sensacional como Raimunda, e não vou fazer aquela infame piadinha com o nome (até porque ela não faz sentido com esta lindíssima atriz). Lola Dueñas e Carmen Maura também realizam ótimos trabalhos, reafirmando ainda mais as relações familiares entre as personagens que interpretam.

Outro aspecto a ser discorrido com o mínimo de observação é o cuidado estético da obra. As cores não são tão fortes como as empregadas por Wes Anderson, mas trazem as significações necessárias para que Almodóvar as use de forma a acrescentar um valor artístico muito válido à fotografia (que, por sinal, é muito bem realizada por José Luis Alcaine). Na mesma proposta funciona a montagem de José Salcedo, que não perde tempo ao construir o sentido da narrativa e é fundamental nas brilhantes transições.

Acompanhando o desvencilhar do absurdo da trama, a música não peca em momento algum. Alberto Iglesias está tão solto que até faz muito pontuais referências a obras famosas e não mede esforços ao adicionar toda uma carga emocional nas sequências que encerram o filme.


Como um Hitchcock diferenciado e irreverente, Almodóvar caminha, sem pudor, por diferentes gêneros e faz um “Festim Diabólico” com a seriedade de “Psicose” e acrescentando às suas personagens a forte feminidade de Kim Novak em “Um Corpo que Cai”. Eu sei que eu posso – e talvez devo – ter feito uma merda gigante ao comparar, gratuitamente, dois diretores tão distintos. Mas se serve de explicação, “Volver” demonstra o quão bem trabalhado é a obra do espanhol em uma comparação com o rei do suspense. Filme lindíssimo e obrigatório para qualquer um, mas se não viu até agora apague esta crítica da cabeça porque ver com hype alto não dá.

[MUITO RECOMENDADO]
 
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