sexta-feira, 18 de julho de 2014

Crítica - Planeta dos Macacos: O Confronto

 

Dez anos após o chimpanzé César (Andy Serkis) liderar um levante de primatas para fora da área civilizada de São Francisco, o mundo sofre com a chamada gripe símia, provocada pela droga que desenvolveu potencialmente as faculdades intelectuais dos primatas da região. Em um prédio central da cidade, ainda vivem os humanos que não foram infectados pela gripe, este grupo é liderado por Dreyfus (Gary Oldman), um homem de meia idade que preza pela segurança dos humanos ali refugiados. Na esperança de trazer a energia de volta à cidade, Malcom (Jason Clarke) tem o plano de religar a usina hidrelétrica que abastecia o local. Porém, a usina fica exatamente na floresta onde moram os símios, o que faz com que uma forte tensão se instaure entre humanos e primatas.

De início nos é mostrado como a doença se espalhou rapidamente mundo afora (e até relevamos o fato de todo o planeta falar inglês) até que, de repente, fitamos os ameaçadores e hostis olhos de César. Seu olhar é acompanhado de uma forte chuva, aumentando o misto de sensações que temos ao fita-lo. O chimpanzé amadureceu, ele não é mais aquele animalzinho bonito pelo qual nos apaixonamos em “A Origem”. Mais do que qualquer outra coisa, seu olhar nos conta exatamente como será o filme: adulto, pesado e impiedoso.

A partir do roteiro escrito por Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver, Matt Reeves dirige, com perfeição, um dos melhores “Planeta dos Macacos” já realizados. A envolvente história conserta um dos agravantes erros do anterior ao desenvolver seus personagens humanos da mesma forma como trabalha os símios, ou seja, com bastante cuidado e complexando-os ao máximo. Seja do lado humano ou do primata, são explorados diferentes pontos de vista a respeito de toda a situação. As motivações são bem estabelecidas, nada acontece por acaso ou só para dar andamento à história. Antítese de César, o chimpanzé Koba, interpretado de forma incrível por Tobby Kebbell, possui um desenvolvimento impressionante, sendo peça-chave para todo o enredo.

Não há como fugir quando a própria tradução brasileira nos entrega o que acontecerá: um confronto. Este não se inicia de forma súbita, pelo contrário, é gradualmente desenvolvido e o terreno para ele preparado demonstra seu caráter hostil e iminente. Além de diversos outros aspectos contribuírem bastante para essa preparação, considero de grande importância o som. Em um bom cinema, é claro, ouvir os primatas guinchado, se movimentando nos galhos e correndo é algo imersivo e, de certa forma, ameaçador. E é por isso, meus amigos, que eu recomendo ainda mais veemente que assistam ao filme legendado, duvido muito que a versão brasileira preserve a admirável qualidade sonora original.


O filme anterior já era lindo o bastante para desbancar de vez a versão de Tim Burton, mas “O Confronto” foi além, colocando o filme de 2001 no chinelo. Os visuais pós-apocalípticos da cidade lembram bastante o que foi apresentado no jogo “The Last of Us”, com cenários que se adequam ao que realmente poderia acontecer numa situação de total abandono de determinados locais urbanos. Acompanha esta proposta a escura fotografia de Michael Seresin, que também fotografou “O Prisioneiro de Azkaban”, um dos mais sombrios da franquia de Harry Potter. Segundo o Real or Fake 3D, a obra foi filmada diretamente em 3D, o que pode até ser verdade, mas que não garante o bom uso da tecnologia. O filme é muito escuro para que o 3D tenha algum efeito, não acrescentando em nada à proposta visual deste.

Não conheço todo o trabalho de Andy Serkis com a captura de movimentos, mas este César foi o personagem que mais me agradou daqueles interpretados por ele. Com o pessoal da Weta cada vez mais capacitado a desenvolver modelos realistas, Serkis apenas faz o que sabe de melhor e atua de forma memorável. Apesar de não surpreender, Jason Clarke realiza um bom trabalho no papel de Malcom e Gary Oldman, bem... Talvez seja um dos poucos personagens unidimensionais da história, mas é bom ouvi-lo gritar novamente.

Como fã de “Lost” e “Planeta dos Macacos”, eu dificilmente encontraria alguma relação entre os dois. Porém, Michael Giacchino, que trabalhou na trilha sonora da série, é o responsável pelo mesmo aspecto por aqui. Suas músicas se assemelham bastante ao que o musicista realizara na série e em outros de seus trabalhos, apostando em tons crescentes e que envolvem o espectador. Para não escolher momentos mais reveladores, destaco a cena em que nasce o filho de César (acompanhado de uma música muito suave e sensível) e as sequências de tensão em que os símios se aproximam do refúgio dos humanos, com uma trilha agitada e que nos remete aos momentos d’Os Outros naquela ilha maldita.


Continuando a honrar o que foi construído no passado, “Planeta dos Macacos: O Confronto” é tão inteligente como as obras que os precederam. Imersivo do início ao fim, não há como não se envolver pela excelente história contada por Matt Reeves. Um blockbuster de verão que, diferente de outros movidos a óleo que vemos por aí, surpreende por sua sumidade.

[MUITO RECOMENDADO]
 
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