domingo, 27 de julho de 2014

A barreira do Cinema Falado

 

pautamos aqui no blog sobre os adventos que trouxeram o áudio para o cinema e as técnicas que o fizeram ser um dos elementos mais importantes na produção audiovisual propriamente dita (não venham com o mimimi dos filmes brasileiros, por favor).

Falamos sobre o Vitaphone e outros elementos que faziam o som compor a imagem de tal forma que o sentido do que está sendo transmitido seria totalmente incompreendido se não fosse por ele.


Apesar das limitações técnicas, como qualidade e tecnologia dos microfones da época, reprodução e sincronia do som, restrição da montagem, entre vários outros problemas, a maior limitação foi a aceitação do novo recurso cinematográfico. Sim, hoje em dia é estranho imaginar que o uma coisa "tão simples" como o som pôde ter sido repudiado, inclusive por ícones consagrados do cinema tal qual Charles Chaplin. Leia abaixo um trecho de seu livro "Minha Vida":
"Quando estava em Nova York, contou-me um amigo que assistira a experiências de sincronização do som nos filmes e preconizou que em breve isso revolucionaria toda a indústria do cinema. Só voltei a pensar no assunto quando, meses depois, a Warner Brothers produziu sua primeira sequência falada. Era um filme de época, mostrando uma atriz sedutora - deixemo-la no anonimato - que expressava em silêncio a mais profunda tristeza, os grandes olhos doridos revelando uma angústia que ia além da eloquência shakeaspiriana. Então, de súbito, introduziu-se no filme um novo elemento - a zoeira de um buzio que se encosta ao ouvido. E a adorável criatura, uma princesa, falou como se tivesse areia na garganta: "Desposarei Gregory, mesmo que tenha de renunciar ao trono!" Foi um choque medonho, pois até aí a princesa nos elevara. À medida em que a projeção avançava, o diálogo foi-se tornando cada vez mais cômico, porém não tão engraçado quanto os efeitos sonoros. Quando girou a maçaneta da porta de um boudoir, tive a impressão de que alguém pusera em funcionamento um trator agrícola; a porta fechou-se com um barulho igual ao da colisão de dois caminhões carregados de toros. É que de início nada se sabia sobre controle de som: um cavaleiro andante em sua armadura era mais estridente que um aciaria, um simples jantar de família tornava-se tão rumoroso como um restaurante barato na hora de maior movimento, a água despejada num copo toava esquisitamente como uma escala que subisse até o dó sustenido. Deixei a sala de projeção na crença de que os dias do cinema sonoro estavam contados. Mas, um mês depois, a M.G.M. produziu Melodia da Broadway, um musical de longa-metragem, coisa reles e enfadonha, mas que foi enorme sucesso de bilheteria. Era a largada... De um dia para o outro, todos os cinemas começaram a equipar-se para o cinema sonoro. Foi o crepúsculo das fitas silenciosas. Dava pena, porque elas começavam a melhorar. Murnau, o diretor alemão, soubera usar na maneira mais eficiente esse meio de expressão e alguns dos nossos diretores americanos iam pelo mesmo caminho. Um bom filme silencioso constituía atração para qualquer plateia, da mais intelectualizada à mais simples. E isso tudo estava agora para se perder."

É notável que a controvérsia gerada pelo som estava embasada na limitação técnica, assim como aconteceu com o technicolor e a computação gráfica. Óbvio que certos recursos que inicialmente causam alvoroço podem ser uma decepção mais tarde, um exemplo recente é a tecnologia 3D. E também outros recursos que morrem, não por serem ruins ou inúteis, mas por serem apenas substituídos por novos e mais modernos, de igual ou melhor qualidade, como está acontecendo entre a captação em película e a digital.

Não devemos desmerecer os que agiram com incredulidade em relação ao som no cinema, até porque Chaplin, mais tarde, se adaptou às novas técnicas e gradativamente fez excelentes filmes falados, como sempre fez aliás. Para citar exemplos: Luzes da Cidade (City Lights, 1931), onde não há diálogo falado, mas sim o som sincronizado, também em Tempos Modernos (Modern Times. 1936), filme no qual a voz de Chaplin é ouvida pela primeira vez no cinema, e para completar o ciclo, o belíssimo discurso feito por ele em O Grande Ditador (The Great Ditactor, 1940), ridicularizando o nazismo um ano antes de os EUA entrarem na 2° Guerra Mundial.


Agora para dar mérito aos que foram visionários e abusaram do recurso sonoro se considerarmos os recusos e mentalidade da época podemos citar Alfred Hitchcock, que conseguiu driblar as dificuldades técnicas com outras técnicas, principalmente de montagem.

No primeiro filme sonoro da Inglaterra e também de Alfred, Chantagem e Confissão (Blackmail, 1929) é uma exímia demonstração do potencial do som e de que as limitações estão apenas na cabeça das pessoas. Para se livrar da dificuldade da montagem e sincronia do som nas sequencias de diálogo ele optou por fazer movimentos de câmera mais sutis, desta forma o enredo poderia se desenvolver melhor, sem inibições. E nas sequências onde a imagem dizia mais, a sequencia acontecia como um verdadeiro filme mudo, apenas com movimentos de câmera, trilha e efeitos sonoros.

Confira abaixo o exemplo da sequência fenomenal em que a personagem principal (Anny Ondra) sofre uma crise de culpa durante o café da manhã, pois havia cometido um assassinato a facadas na noite passada quando sofreu uma tentativa de estupro. É interessantíssimo ver como o novo recurso é usado e abusado para compor a linguagem da cena...


E o mais interessante é que assim como Chaplin, que passou a fazer filmes sonoros por causa da demanda do público, Alfred fez duas versões de Chantagem e Confissão, uma falada e uma muda, para agradar tanto os entusiastas quanto os saudosistas.

Outra curiosidade sobre essa transição foi a inadaptação de certos atores e atrizes que desfizeram sua carreira, não por incredulidade ou saudosismo como acontece em O Artista (The Artist, 2011), mas porque simplesmente tinham a voz horrível e não puderam se manter apenas com o rosto bonitinho.


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