terça-feira, 10 de junho de 2014

Tirando a poeira de Crime Delicado

 

Conheci “Crime Delicado” por meio de uma recomendação feita por Pablo Villaça, crítico que admiro muito, em um podcast sobre David Lynch. Pablo dizia que a mensagem do filme era de que a crítica empobrecia a arte, o que me deixou um pouco encucado. Passados alguns meses, assisti ao longa e percebi a diversidade de leituras que este possibilita.

Antônio (Marco Ricca) é um crítico de teatro que escreve para um jornal local. Em uma de suas idas ao bar, ele conhece Inês (Lilian Taublib), uma bonita moça pela qual se apaixona. Porém, Inês mora na casa de José Torres Campana (Felipe Ehrenberg), um pintor que a usa de modelo para seus eróticos quadros. Isto, é claro, não poderia deixar Antônio mais nervoso...


Baseado no livro de Sérgio Sant'Anna, o filme tem direção do paulista Beto Brant. A obra, apesar de sua abrangência de temas, se foca na retratação do crítico de arte e em suas diversas facetas no cotidiano. As câmeras estáticas e os longos planos nos dão uma breve ideia da hostil vida de Antônio, um homem amargurado que não gostaria de assistir à própria peça da qual é protagonista. E se o personagem conhece as estruturas de uma boa obra mas não as usa em prol de bons relacionamentos, a pequena quantidade de músicas ressalta os buracos e a pacatez de sua vida.

De nada valeria esse aprofundamento no personagem se não fosse pela excelente atuação de Marco Ricca. Capturando desde os momentos de conformidade até os ocasionais desesperos psicológicos, o ator é peça fundamental para o realismo de Antônio. O mesmo vale para Taublib, que interpreta uma personagem ainda muito ingênua das maldades em que pode estar envolvida.

Em seu eficientíssimo trabalho, Brant dá importância ao plano-detalhe, tentando passar ao espectador as essências dos objetos ali presentes. A extensa sequência em que Inês é pintada possui diversos destes planos e ajuda a entender as – possíveis, assim como todas as outras aqui levantadas - críticas à glamourização. Qual é a grande explicação para se dar tanto valor e elevar a um patamar tão alto algo que provém de tamanha normalidade?

Não serei escroto o suficiente para revelar o que acontece, mas a partir de um ponto a vida de Antônio passa a ser contada em preto e branco. Esta fotografia não é nada gratuita e enriquece o leque de significações do filme.


“Crime Delicado” possui uma história comum que, ao ser passada pelas mãos de Brant, toma proporções curiosas e instigantes. Quem fala que do Brasil só saem filmes ruins não têm muita noção do que este conseguiu ser - ou apenas não vê filmes, de fato, brasileiros.
 
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