segunda-feira, 11 de julho de 2016

Três décadas após o clássico filme estrelado por Bill Murray e cia, “Caça-Fantasmas” surge como o recomeço da série nas telonas. Ao invés de novos atores nos clássicos papeis do original, a proposta foi trabalhar com um novo time composto exclusivamente por mulheres. Dessa vez, o grupo é formado por Erin (Kristen Wiig), Abby (Melissa McCarthy), Jillian (Kate McKinnon) e Patty (Leslie Jones). 

“Caça-Fantasmas” abre com uma sequência envolvendo um museu amaldiçoado, que logo virá a ser um dos primeiros casos do grupo. Nestes primeiros minutos, já é possível observar como o reboot trabalha com o terror de forma mais intensa, apresentando figuras mais aterrorizantes e até provocando pequenos sustos. Mas basta que o foco seja direcionado para as personagens para lembrarmos de que se trata de uma comédia – e das boas, eu diria. 

Cada personagem é introduzida com calma, havendo um tempo de tela muito bem distribuído para a apresentação. Erin, a mais pé no chão, é a primeira a aparecer. Logo depois, vêm Abby, que meio que “encabeça” a equipe, e a extremamente surtada Jillian, um dos grandes destaques do filme. Patty, a grande conhecedora de Nova York, é integrada posteriormente. Assim como no original, há um ótimo equilíbrio entre as personalidades de cada integrante, o que favorece a dinâmica e a relação entre estes personagens. 

Assinado por Katie Dippold e Paul Feig, o roteiro evolui com naturalidade, trabalhando muito bem o desenvolvimento da trama, sem correr demais com algum plot ou sobrecarregar outro. E ao passo que isso é feito, o longa reinsere e referencia elementos dos filmes originais. O logo do grupo, por exemplo, é obra de um grafiteiro que perambula pelo metrô da cidade. Impressiona não somente as homenagens e referências ao filme original, mas a forma como o filme trabalha com elas.

No mais, “Caça-Fantasmas” é um filme muito divertido, que consegue incluir piadas pontuais e se aproveitar da relação entre as personagens para fazer boas sacadas. E se a ação mais intensa, com melhor uso do cenário, também contribui para o resultado final, não há dúvidas que é um filme que atualiza a franquia de forma muito proveitosa.

quinta-feira, 2 de junho de 2016


É sempre complicada a tarefa de adaptar um jogo para uma mídia como o cinema. Sem a interatividade, torna-se necessário fechar uma história a partir do material original e torná-la palatável mesmo para aqueles que nunca botaram a mão em um game. Felizmente, o jovem Duncan Jones tira de letra boa parte destes desafios e Warcraft não é uma das tantas bombas de filmes-baseados-em-jogos™. 

E a trama não poderia ser mais simples. Com seu planeta-natal em extinção, os orcs invadem Azeroth, planeta compartilhado pacificamente entre humanos, anões e outros seres humanóides. A invasão dá início a uma guerra e ambos os lados se mobilizam para findar o conflito. Do lado dos orcs, há o líder Gul'dan (Daniel Wu), muito influente entre os seres, e o chefe Durotan (Toby Kebbell), orc com mais tempo de tela. Entre os humanos estão o rei Llane Wrynn (Dominic Cooper), Lothar (Travis Fimmel) e os magos Medivh (Ben Foster) e Khadgar (Ben Schnetzer). 

Por se tratar de um universo ainda desconhecido por muitos, caberia a uma extensiva narração ou a flashbacks a tarefa de explicar tintim por tintim daquela história. E Warcraft já começa acertando em cheio justamente por não utilizar estes já saturados recursos, o que ele faz é lançar o espectador para o desolado mundo dos orcs e já introduzir o conflito que está por vir. É a partir da guerra que se abre a história e daí em diante já estamos mais do que bem ambientados. 

Outro cuidado do roteiro de Jones e Charles Leavitt é o de trabalhar bem os personagens do universo. Para não tomar um lado daquele conflito, tanto os orcs quanto os humanos têm tempos de tela consideráveis, o que nos ajuda a entender as motivações de cada lado. Além disso, na maioria das vezes são personagens interessantes, em especial Garona (Paula Patton), meio-humana meio-orc, e o mago aprendiz Khadgar (Ben Schnetzer). No geral, o elenco também não desaponta, com exceção do pouco inspirado Dominic Cooper e da inexpressiva atuação de Travis Fimmel, que não convence tanto no papel de Lothar, fundamental para a trama. 

Acompanhar uma história sem um protagonista declarado pode ser uma experiência diferente para a maioria dos espectadores. Dificultou um pouco meu envolvimento com a história, mas creio que seja mais questão de estranhamento do que decepção. A imersão proporcionada pelo belíssimo universo faz com que não nos preocupemos tanto com isso. Tanto Azeroth quanto o planeta dos orcs possuem identidades próprias, e os efeitos (algo que, chuto eu, seja uma mescla entre CGI e efeitos práticos) são coerentes com a lógica daquele universo. A trilha composta por Ramin Djawadi contribui para o tom épico que demanda a história. 

Ainda que possua pequenos e incômodos deslizes (um acontecimento familiar envolvendo Lothar é extremamente mal explorado e há algumas gordurinhas na história), Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos é uma obra bem interessante, que consegue introduzir um leigo espectador ao universo e funciona como o sci-fi-medieval-mágico que se propõe a ser. Mais um acerto do jovem Bowie.


Um ano após o show à la Robin Hood, que ganhou o coração do público e confrontou o FBI, os mestres da mágica conhecidos como os Quatro Cavaleiros são convocados para mais uma performance. Dessa vez, os Cavaleiros - J. Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), Merritt McKinney (Woody Harrelson), Jack Wilder (Dave Franco) e Lola (Lizzy Caplan) –, com a ajuda do agente do FBI Dylan Rhodes (Mark Ruffalo), elaboram uma aparição-surpresa para expor um magnata da tecnologia.

Três anos após o primeiro Truque de Mestre, a dinâmica entre os personagens continua extremamente fluida e agradável. Mesmo com a ausência de Isla Fisher (a atriz estava grávida e não pôde participar das filmagens), O 2º Ato mantém uma das poucas coisas que funcionaram bem no longa de três anos atrás, o que em muito se deve às boas atuações presentes na obra.

Um dos aspectos melhorados nesta sequência é o desenvolvimento destes mesmos personagens, mas com ressalvas. As subtramas familiares enriquecem Dylan (Mark Ruffalo) e dão mais sentido às suas motivações. Outro mágico, que possui uma relação familiar com um dos Cavaleiros, é adicionado no decorrer da trama, trabalhando melhor o desenvolvimento de um deles. Ainda assim, os demais continuam sem muito background. Ainda conhecemos pouquíssimo de J. Atlas, Jack Wilder e, agora, Lola, e isso impede que tenhamos uma identificação mais plausível com estes. Além disso, pouco se fala da ausência de Henley, fortalecendo a ideia de que Lola foi integrada ao grupo apenas para tapar buraco – e a forma como o roteiro a introduz corrobora com isso.

A trama, por sua vez, é mais redonda, construindo de forma eficiente uma história linear, sem confundir o espectador com excessivas reviravoltas ou subplots demais. Ponto para Ed Solomon, que conseguiu enxergar os erros passados e ainda introduz um interessante personagem à história: Walter, encarnado por Daniel Radcliffe, cujas ações contribuem para a história se manter minimamente linear. Ambientado em maior parte em Macau, na China, O 2º Ato é um filme um tanto sóbrio no que se refere a aspectos técnicos. Enquanto no primeiro o diretor Louis Leterrier apostava em planos movimentadíssimos e numa montagem extremamente dinâmica, Jon M. Chu é mais aquietado, com uma sequência ou outra que possui a agitação do primeiro, talvez por conta de o roteiro não exigir a mesma dinamicidade.

Truque de Mestre: O 2º Ato consegue aproveitar o que de melhor foi apresentado em seu antecessor e tenta cortar, ou ao menos amenizar, os problemas do original. Por não conseguir se resolver com maior fluidez em seu final, ainda é um filme inchado, o que o torna um filme longo em seus 139 minutos. O inchaço se deve também ao fato de haver explicação tintim por tintim para quase tudo que aparece em tela, mesmo quando nós já deduziríamos alguns daqueles truques a partir da lógica que nos fora apresentada. Se por um lado isso não deixa que ninguém saia do cinema sem entender bulhufas da história, acaba estragando a experiência de descoberta dos demais espectadores.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016


Em seu oitavo longa-metragem, Quentin Tarantino retorna ao western. Enquanto a primeira empreitada foi marcada pela história de vingança do escravo liberto Django, Os Oito Odiados parte para um caminho diferente, colocando seus odiosos personagens em situações extremas num pequeno chalé.

Na trama, o Major Marquis Warren (Samuel L Jackson) e John Ruth (Kurt Russell), dois caçadores de recompensa, dividem uma diligência que vai para a cidade de Red Rock. Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma fugitiva escoltada por Ruth, e Chris Mannix (Walton Goggins), que diz ser o novo xerife de Red Rock, também estão no veículo. Em meio a uma forte nevasca que se aproxima, os quatro decidem parar num alojamento. No local estão Sanford Smithers (Bruce Dern), um antigo general da Confederação, o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o taciturno Joe Gage (Michael Madsen), e Bob (Demián Bichir), um mexicano que toma conta do local temporariamente.

Seccionado em capítulos, o filme apresenta seus primeiros personagens com calma, um de cada vez. Isto nos ajuda a entender, logo de cara, as diferenças e conflitos morais existentes entre estes, mesmo que um embate físico demore um pouco para acontecer. Tais entrechoques tomam lugar nos afiados diálogos, quase que antecipando uma chuva de sangue que parece iminente. Os conflitos, já estreitos na diligência, chegam aos extremos na cabana de Minnie.

Com toda a propaganda dos 70mm, formato escolhido por Tarantino, muitos esperavam que Oito Odiados aproveitasse as montanhas do Colorado para explorar lindos e gelados planos abertos até não poder mais, porém, é no claustrofóbico Minnie’s que Tarantino conta dois terços de sua nova história. Isolado por motivos geográficos e, naquele momento, climáticos, o chalé é o palco perfeito para o cineasta despejar uma boa quantidade de dinamite e esperar pela faísca que porá tudo em chamas. Para a tarefa ele conta também com a ajuda da boa fotografia assinada por Robert Richardson, que trabalha com sutileza o escuro ambiente e as superfícies geladas daquele inverno.

E é também nos diálogos que levam a estas situações que passamos a conhecer cada um daqueles alojados. De poucos flashbacks, o filme aposta na credibilidade das histórias contadas pelos personagens para expandir seu próprio universo. Se não temos certeza se Joe Gage é de fato o cowboy solitário que passa o natal com sua mãe, o que dizer da história de Chris Mannix, o suposto novo xerife de Red Rock que acaba de perder seu cavalo? Ao final, pouco importa o que é verdadeiro ou não, são estas incertezas que movem grande parte das situações do filme. 

Oito Odiados, com seu ótimo elenco, faz jus ao alto nível das atuações da filmografia de Quentin. Ainda que Jackson seja o grande destaque do filme (merecidamente), há de se falar da imponência de Kurt Russell ao encarnar Ruth e a talentosa Jennifer Jason Leigh, que trabalha Daisy com o misto de despojamento e ameaça que a personagem requer. Curiosidade: Nos anos 1960, Bruce Dern, que não poderia estar melhor em seu papel de General Smithers, atuou em western como A Marca da Forca, com Clint Eastwood, e Gigantes em Luta.

Desconstruindo paradigmas e padrões do subgênero, Tarantino, ao contrário de outros trabalhos, utiliza uma maior “sobriedade” no desenvolvimento da trama, deixando as tradicionais referências e homenagens para o próprio universo do filme. Outro ponto interessante é a boa trilha composta por Ennio Morricone, que surpreende ao apresentar temas bem distintos das canções que outrora compunha para western

No mais, trata-se de mais uma grande obra do cineasta. Ainda que os primeiros capítulos pudessem receber uma enxugada na montagem, é admirável a bela forma como são construídas as situações do filme. Com um desenvolvimento marcado pela condução de Tarantino no longos diálogos (afinal, é um filme que beira as três horas de duração), The Hateful Eight entra fácil na briga pelo posto de melhor obra do diretor. 

Alguém já reformulou o Código Tarantino depois desse filme?

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Os Oito Odiados (The Hateful Eight) – EUA 2015 – Direção e roteiro: Quentin Tarantino | Com Samuel L Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Bruce Dern, Tim Roth, Michael Madsen e Demián Bichir

terça-feira, 5 de janeiro de 2016


Se contar uma história pode ser algo difícil, contar uma história sobre pessoas contando uma história é ainda mais problemático. Não entendeu? Spotlight se propõe a ser um filme sobre jornalismo. Assim sendo, adicione tudo isso ao momento atual, marcado por um jornalismo muito desacreditado, e imagine o pepino. “E se, ao contar esta história, alguém errar na mão e ferrar mais com a situação deste pobre menino que respira por aparelhos?”, questiona um espectador que preferiu não se identificar. Felizmente, Thomas McCarthy faz um filme na medida certa, narrando com maestria o fazer da profissão e seu papel na sociedade – não se esquecendo, claro, de contar uma história palatável a todos.

Em Spotlight – Segredos Revelados, acompanhamos o dia a dia dos jornalistas do Boston Globe que, em 2002, relataram uma série de casos de estupro e abuso infantil cometidos por padres da cidade. As matérias impulsionaram uma reação em cadeia, trazendo à tona diversos casos semelhantes em todo o mundo. A obra é centrado no então novo editor Marty Baron, interpretado por Liev Schreiber, e, principalmente, na equipe “spotlight” do jornal: Walter Robinson (Michael Keaton), Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James). 

Marcado por atuações inspiradas, o longa tem a proeza de se manter interessante e com bom ritmo até mesmo nas várias reuniões da redação. Boa parte de Spotlight se passa num escritório do Boston Globe. Acredite, não fica cansativo. Ainda que o roteiro de McCarthy e Josh Singer possua alguma barriguinha, este é econômico ao trabalhar as situações na redação e preciso no processo de apuração do ocorrido. Uma sequência que traduz esta característica se encontra lá para o meio do filme, com Mike e Sacha entrevistando pessoas distintas. Neste momento, a eficiente montagem de Tom McArdle é econômica ao passo que, em poucos minutos, contrasta bem os métodos e dificuldades de cada um deles enquanto jornalistas – além desenvolver estes personagens em tela.

Em 128 minutos de projeção, o filme propõe discussões que vão desde a importância de uma fonte que, a princípio, não se encontra no escopo da pauta (como o caso de Phil Salviano, vivido por Neal Huff) até as problematizações da natureza do abuso. Mesmo não adentrando a maioria das questões, é visível seu esforço em pelo menos pincelá-las. O verdadeiro primor está mesmo no desenrolar da reportagem, nos diferentes estágios e percalços do jornalismo investigativo. E ainda que logo no começo possamos nos perder em meio a tantos nomes e ocorridos (afinal, não estamos anotando nem arquivando as informações como eles), Spotlight oferece uma experiência imersiva e completa.


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Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight) – EUA 2015 – Direção: Thomas McCarthy | Roteiro: Thomas McCarthy e Josh Singer | Com Liev Schreiber, Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian d’Arcy James

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


Theo está confuso e chora. À procura de alguém que o acolha naquele momento, ao menos para lhe servir de companhia, ele vai até a filha Klara. Naquele momento, um turbilhão de acontecimentos recentes coloca em cheque toda uma vivência.  “O mundo está cheio de maldade, mas se ficarmos juntos, ela vai embora”, diz o rapaz.

É meio difícil ver “A Caça” sem saber nada da história. De qualquer forma, o que se destaca é o belíssimo desenvolvimento que Vinterberg dá ao roteiro, escrito em parceria com Tobias Lindholm. As subtramas da vida de Lucas, como a guarda do filho Marcus e o envolvimento com Nadja, são pontuais e servem tanto ao conturbado momento da vida dele quanto para o próprio desenvolvimento do personagem. No início, as coisas acontecem de forma apressada, mas basta o filme se estabelecer para que o diretor conduza com calma seu realista drama.

Junto a Charlotte Bruus Christensen, que assina a fotografia, Vinterberg constrói bem as cenas que requerem um maior peso dramático. É interessante perceber como a luz é usada nos diálogos do longa, como, evitando maiores spoilers, na cena em que Klara relata o suposto abuso à professora, ou mesmo nos marcantes diálogos que Lucas mantém com Theo ao longo do filme, proporcionando belas rimas visuais. O frequente zoom na primeira metade do filme incomoda um pouco. Fiquei com a impressão de que o uso de outros artifícios não bastava para Vinterberg comentar o que queria. Pelo menos não é tão usado mais para o final.

Para finalizar, “A Caça” é o que é basicamente por sua delicada temática. Quanto a isso, não restam dúvidas da eficácia de seus realizadores. Um dos charmes da obra está no contraste entre uma suposta intolerância coletiva e a força do relato infantil (e a quase credibilidade cega e absoluta que damos a ele). Tal contraste só é possível na impressionante verossimilhança do filme, que reside também nos precisos diálogos e nas ótimas atuações (é claro que eu não me esqueceria de Mikkelsen).

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A Caça (Jagten) – Dinamarca/Suécia 2012 – Direção: Thomas Vinterberg | Roteiro: Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg | Com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm e Susse Wold

quinta-feira, 27 de agosto de 2015


A sequência que abre Corrente do Mal é um tanto instigante. Nela, uma garota sai de casa com medo, parecendo temer e fugir de algo/alguém que não vemos. Como não conhecemos esta personagem, o que acontece com ela logo depois não mexe tanto conosco, mas instiga. Além disso, esta sequência consegue antecipar, sem contar demais ou apelar para a exposição, um pouco da maldição que o filme trabalhará em seus 100 minutos. O problema é quando a melhor sequência já foi usada ali, no comecinho. 

Jay Height (Maika Monroe), uma jovem moça que ainda cursa o colegial em Michigan, sai num encontro com Hugh (Jake Weary). Após fazerem sexo, o rapaz avisa que acabou de passar para ela uma maldição. Esta permite ver figuras estranhas que vagam pelos lugares e tentam matá-la.

Por aqui, há um tom diferente em relação a outros filmes de terror. It Follows possui um desenvolvimento mais lento, que trabalha a serenidade da cidade interiorana e brinca com o que já há de misterioso num local assim. É interessante ressaltar também como, pelo menos nos primeiros momentos, o filme foge dos clichês mais batidos do gênero, como a trilha que se torna mais presente antecipando um susto e afins.

No entanto, o filme não consegue desenvolver bem aquilo que de principal apresenta: a maldição. Após algum tempo, fica bobo, damos pouca credibilidade ao que acontece em tela e as atitudes de alguns personagens quebram a construção que o filme havia feito. Num determinado momento, Jay e alguns amigos encontram Hugh e querem tirar satisfação a respeito da maldição. O que acontece? Nenhuma briga, nada. Apenas todos juntos tomando refri no jardim e discutindo o que acontece. Esta cena, inclusive, tem direito a uma piadinha completamente fora do tom que o filme vinha apresentando e que deslegitima ainda mais a sensação que ele quer que o espectador tenha quanto à maldição. 

Outro ponto desfavorável na balança é a montagem de Julio Perez, que, além de pouco suave em suas transições, ainda é insegura no uso de seus infinitos establishing shots. Não quebra tanto o tom da narrativa quanto a instabilidade do roteiro, mas incomoda ao longo do filme. Quanto às atuações, fiquei com a sensação de que a direção de atores de Mitchell é um tanto deficitária. Senti mais alguns adolescentes atuando separadamente e menos uma coerência maior das situações performadas. Ainda assim, Maika Monroe destaca-se na medida do possível e confere a Jay as inseguranças e o medo da personagem, mas sem o exagero que facilmente poderia aparecer.

Fui capturado pelo climão frio de Corrente do Mal logo no início e achei que veria ali uma história de terror diferente das usuais, o que se comprovou ao longo do filme, de certa forma. Seus problemas estão mesmo em como Mitchell trabalhou as situações do filme, desgastando rapidamente a maldição que atazana os personagens e não mantendo a coerência do tom escolhido no início. A maldição chegou por trás e o filme nem viu.

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Corrente do Mal (It Follows) - EUA 2014 - Direção e roteiro: David Robert Mitchell | Com Maika Monroe, Keir Gilchrist, Daniel Zovatto, Lil Sepe, Olivia Luccardi

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Às vezes (quase sempre) é melhor assistir a um filme sabendo apenas seu título. Fui assim para O Silêncio dos Inocentes e me surpreendi imensamente, principalmente pelo belíssimo desenvolvimento de personagens.


A primeira metade nem chega ao fim e já conhecemos toda a vida de Clarice, muito bem interpretada pela eficiente Jodie Foster. Por meio de flashbacks que se encaixam à narrativa proposta, o passado da protagonista se esclarece diante do espectador, explicando os porquês de sua complexa personalidade e atitudes presentes (muito devido à montagem de Craig McKay, ponto forte do longa). Acompanhamos a transformação da moça despreparada, que comete os erros de principiante nas visitas a Lecter, em uma Clarice determinada, que tem firmeza em suas ações e calca sua autoridade na personalidade imponente.

Introspectiva e milimétrica, a atuação de Hopkins confere a Hannibal o tom perfeito demandado pelo roteiro. Sentimo-nos ameaçados pela presença de Lecter, a cena envolvendo os dois policiais, a propósito, não poderia traduzir mais a frieza das ações calculadas do psicopata. Num diálogo lá pelo fim do segundo ato, a câmera de Jonathan Demme se encontra colada na cara do rapaz, enquanto Clarice está entre as grades do próprio Hannibal. Longa milimétrico e repleto de significações até mesmo em curtos planos.

Me frustrei um pouco com a solução encontrada pelo roteiro lá pro final do filme. Estragou o desfecho? Não, mas a irrealidade da situação incomoda. Ainda assim, a conclusão de O Silêncio dos Inocentes é fantástica. 

Logo abaixo, uma (opa, SPOILER) reflexãozinha que coloquei em meu Filmow (êpa, SPOILER) sobre a conclusão deste baita filme (SPOILER).

Nela, fiz a leitura de que o mal se reencarna, tem uma de suas peças tomadas para que outra volte a agir (assim como Twin Peaks). Outra coisa brilhante num dos últimos segmentos é a vítima de Buffalo Bill carregar seu animalzinho nos braços, mostrando o afeto e carinho por um canino que Bill parece nunca ter tido com humanos. Por quê? Nem cabe ao filme responder.


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O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs) - EUA 1991 - Direção: Jonathan Demme | Roteiro: Ted Tally e Thomas Harris (livro) | Com Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn e Ted Levine

sexta-feira, 31 de julho de 2015


O vírus da raiva em sua fase de infecção cerebral é a prova viva, irrefutável e determinante de que, sim, o mal existe e é uma força quase invencível. Não tenho dúvidas de que Stephen King sabia dessa verdade terrena quando escreveu Cujo (ainda que pouco se recorde do processo de escrita do livro). O filme inspirado em sua obra, no entanto, peca ao desenvolver mal seus personagens e não apresentar soluções mais inventivas em sua narrativa.

Além de Cujo, acompanhamos os Trenton e, em alguns momentos, o pessoal que mora junto com o cão. Quando estamos com a família feliz e inabalável, vemos pouquíssimo desenvolvimento destes personagens. Não sabemos quem eles são ou o que fazem (à exceção do pai, publicitário). E não nos esqueçamos de Steve, um conhecido da família que se revela extremamente descartável, servindo apenas às escapadas que o roteiro de Dunaway e Currier encontra para (tentar) amarrar suas pontas. A relação entre eles é boa? Ah, até vai. Mas as pouco inspiradas atuações comprometem o tratamento de Lewis Teague neste aspecto.

Ainda assim – já que não odiei profundamente tudo -, o cãozinho Cujo é algo a ser destacado. Afinal, ele dá nome à obra, né? Mesmo que eu tenha ficado um tanto desconfiado quanto à rapidez da transformação decorrida da raiva, há um trabalho admirável na caracterização do canino. Dos caninos, no caso, já que cinco São Bernardo foram usados na produção. Dos planos que o colocam superior às vítimas aos avanços desesperadores, vemos os méritos de Teague e do montador Neil Travis na elaboração destes momentos.

O final desaponta bastante ao optar pelo caminho mais confortável e lugar comum possível, Mas pra não ser mauzão, prefiro pensar que Cujo foi um TV Movie sem grandes pretensões de entrar para história como um novo Iluminado da vida. 

Não é que ele fica até melhorzinho quando pensado dessa forma?

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Cujo - EUA 1983 - Direção: Lewis Teague | Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier e Stephen King (livro) | Com Dee Wallace, Daniel Hugh-Kelly, Danny Pintauro, Ed Lauter e Christopher Stone

quarta-feira, 1 de julho de 2015


Para quem não havia gostado tanto do primeiro filme (eu) e para aqueles que tentaram ler as graphic novels mas pararam na primeira (eu de novo), a ideia de assistir a Sin City: A Dama Fatal parece não ser a mais tentadora. Ainda assim, junto a todas as baixas expectativas, fui. E não é que viver mais uma noite em Basin City foi uma experiência até batuta? 

Nove anos de promessas, rumores, desencontros e adiamentos marcam a trajetória que nos leva ao segundo filme da série de Miller e Rodriguez. Tanto tempo assim nos faz imaginar o que de mais pode ter acontecido durante aquele tempo, ou até mesmo antes das histórias apresentadas em 2005. A Dama Fatal trabalha justamente com estes buracos e deixas para construir suas histórias, às vezes acertando em cheio (como na sequência que leva o subtítulo do longa), às vezes insistindo em personagens e tramas que já tinham sido o suficiente antes. 

Voltar a Basin City é, como já foi adiantado, uma experiência interessante. O reúso da atmosfera noir atrelado à recriação quase exata das páginas de Miller continuam a gerar composições belíssimas. Desta vez, os diretores estão mais soltos quanto aos movimentos de câmera e ambientação. O exagero no segundo plano, carros e helicópteros ainda mais estilizados e outras ideias mirabolantes devem ter saído da cabeça de Miller. Mas poxa, Rodriguez, as explosões toscas e grupos hermanos empunhando armas latinoamericanas não podiam ter ficado somente em seus outros filmes? 

Just Another Saturday Night, The Long Bad Night, A Dame to Kill For e Nancy’s Last Dance preenchem os 102 minutos do longa. Os segmentos que iniciam e fecham o filme não apresentam lá grandes atrativos, a primeira resgata Marv para mais uma historinha e a última trata de insistir em Hartigan de novo. Obviamente, decisões de mercado para traçar uma conexão entre os dois filmes. Já The Long Bad Night traz Joseph em grande estilo e é uma das histórias mais intensas do longa, vale citar uma envolvendo os pobres dedos do nosso querido ator. Christopher Lloyd, o eterno Doc. Brown, também está lá num papel insano de bom - e insano também. Já A Dama Fatal investe pesado na figura de Ava, encarnada de forma assustadora por Eva Green. Sua personagem é forte, provocante e densa, sendo marcadamente emblemática nos plots da trama. Se os personagens por Ava provocados ainda tibubeiam antes de serem fisgados, o espectador já foi cozido e digerido muito antes. 

Em um certo momento, Dwight (Josh Brolin) é contratado por uma moça para fotografar seu marido com uma possível amante. “O triste é que algumas das composições são muito boas”, revela Dwight ao perceber como, mesmo que com um conteúdo sujo e esdrúxulo, suas fotos ainda saem bonitas. Não é necessário pensar muito para perceber como o personagem ironicamente comenta a própria obra. Afinal, os méritos técnicos em composição, fotografia, direção de arte e afins estão lá, trata-se de um universo muito bem passado pra tela, trabalhado e instigante. Além disso, alguns segmentos preenchem esta ambientação de forma a ressignificá-lo bem. Mas sabe quando ainda não é aqueeeeeeeela coisa? Então, Sin City 2 é assim. 

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Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame to Kill For) - EUA 2014 - Direção: Frank Miller e Robert Rodriguez | Roteiro: Frank Miller | Com Mickey Rourke, Jessica Alba, Josh Brolin, Joseph Gordon-Levitt, Rosario Dawson, Bruce Willis, Eva Green
 
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